quinta-feira , 28 maio 2026
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China demole igreja protestante após disputa por bandeira nacional e prende fiéis em Wenzhou

Caso ocorreu na província de Zhejiang, região conhecida pela forte presença cristã; ONGs denunciam avanço da repressão contra igrejas independentes no país

O ditador da China, Xi Jinping - Foto: FE/EPA/MAXIM SHEMETOV / POOL

A demolição de uma igreja protestante em Wenzhou, na província chinesa de Zhejiang, reacendeu denúncias de repressão religiosa contra comunidades cristãs que atuam fora do controle direto do Estado. A Igreja Yazhong, também chamada de Igreja Yayang, foi reduzida a escombros após meses de tensão com autoridades locais, segundo organizações de defesa da liberdade religiosa.

O caso ganhou repercussão internacional porque Wenzhou é conhecida como uma das regiões de maior presença cristã na China, sendo frequentemente chamada por observadores estrangeiros de “Jerusalém da China”. A cidade já havia sido palco de outras ações contra templos e símbolos cristãos nos últimos anos.

Como começou o conflito

Segundo a organização ChinaAid, a tensão entre a igreja e o governo local teve início após a resistência dos fiéis em cumprir uma determinação das autoridades para instalar símbolos nacionais chineses no espaço religioso.

A exigência incluía o hasteamento da bandeira da China dentro da igreja e a construção de um mastro no terreno do templo. Para parte da comunidade, a imposição representava interferência política em um local considerado sagrado.

Com a recusa, funcionários ligados ao governo teriam entrado à força na propriedade, derrubado parte do muro externo e instalado o mastro. A medida gerou reação de fiéis e aumentou o impasse entre a congregação e as autoridades.

Operação policial e prisões

A ofensiva mais dura ocorreu em dezembro de 2025, quando forças de segurança realizaram uma operação antes do amanhecer em locais de reunião ligados à igreja. De acordo com relatos de organizações cristãs, policiais especiais e agentes de controle de distúrbios foram mobilizados para ações coordenadas em diferentes pontos da cidade de Yayang, no condado de Taishun.

Durante a operação contra a Igreja Yazhong, mais de cem fiéis foram dispersados ou detidos temporariamente. Outras entidades que acompanham o caso relatam que o número de pessoas levadas para interrogatório pode ter passado de duzentas, considerando ações em locais ligados à rede de igrejas da região.

Entre os detidos estão os líderes religiosos Lin Enzhao e Lin Enci, apontados como figuras importantes da comunidade local. Eles foram enquadrados em acusações relacionadas a “provocar tumultos” ou “criar problemas”, uma tipificação ampla usada com frequência na China contra dissidentes, ativistas e grupos considerados desafiadores à ordem pública.

Demolição da igreja

Após meses de cerco, vigilância e restrições, a estrutura da Igreja Yazhong foi demolida em maio de 2026. Segundo a ChinaAid, a ação ocorreu com forte presença policial, bloqueio de vias próximas e restrição ao registro de imagens por moradores e fiéis.

Relatos divulgados por organizações internacionais indicam que autoridades teriam isolado a área, monitorado aparelhos eletrônicos e impedido a aproximação de pessoas não autorizadas. A demolição teria sido concluída em menos de 72 horas, deixando a comunidade sem seu principal espaço de culto.

A igreja já vinha sofrendo intervenções desde o início do ano, com remoção de cruz, destruição parcial de estruturas e presença de agentes públicos no local.

O que está por trás da repressão

O caso é visto por grupos de direitos humanos como parte de uma política mais ampla do governo chinês para submeter comunidades religiosas às diretrizes do Partido Comunista Chinês. Pequim reconhece oficialmente cinco religiões — budismo, taoismo, islamismo, catolicismo e protestantismo —, mas exige que as atividades religiosas ocorram dentro de instituições registradas e supervisionadas pelo Estado.

No caso do protestantismo, igrejas independentes ou “domésticas” enfrentam maior pressão por não estarem vinculadas ao sistema oficial controlado pelo governo. Essas comunidades costumam rejeitar a interferência estatal em sua organização interna, na escolha de líderes e no conteúdo das pregações.

Nos últimos anos, o governo chinês intensificou a chamada política de “sinicização” das religiões, que busca adaptar crenças, símbolos e práticas religiosas aos valores políticos e culturais definidos pelo Estado. Na prática, críticos afirmam que a medida amplia o controle do Partido Comunista sobre a vida religiosa.

Região já tinha histórico de tensão

Wenzhou não é um caso isolado. A cidade e outras áreas de Zhejiang já foram alvo de campanhas de remoção de cruzes, fechamento de templos e demolição de igrejas. Em 2014, a destruição da Igreja Sanjiang, também na região de Wenzhou, provocou forte reação internacional e se tornou símbolo do confronto entre comunidades cristãs locais e autoridades chinesas.

Para organizações de liberdade religiosa, a demolição da Igreja Yazhong mostra que a pressão sobre os cristãos independentes continua avançando, especialmente contra grupos que rejeitam símbolos políticos dentro dos espaços de culto.

Governo chinês mantém controle rígido sobre religião

As autoridades chinesas costumam afirmar que protegem atividades religiosas legais, desde que estejam de acordo com as normas do país. No entanto, entidades internacionais argumentam que o sistema chinês restringe a liberdade religiosa ao condicionar a prática da fé à aprovação e vigilância do Estado.

O episódio em Wenzhou ocorre em meio a outras ações recentes contra igrejas não oficiais na China. Em 2025, líderes da Igreja Zion, uma das maiores redes cristãs independentes do país, também foram detidos em uma operação nacional, aumentando o temor de uma nova fase de repressão contra comunidades cristãs fora do sistema estatal.

Comunidade teme novas ações

A demolição da Igreja Yazhong deixou fiéis sem local fixo de culto e reforçou o clima de medo entre cristãos da região. Segundo relatos de organizações que acompanham o caso, moradores e membros da igreja evitam comentar publicamente o episódio por receio de novas detenções.

Enquanto grupos internacionais denunciam perseguição religiosa, o caso evidencia o aumento da disputa entre comunidades de fé independentes e o modelo de controle religioso imposto pelo Estado chinês.

A destruição do templo, somada às prisões e à vigilância sobre os fiéis, transforma a Igreja Yazhong em mais um símbolo da tensão entre liberdade religiosa e controle político na China contemporânea.

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