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Mais de 800 mil alagoanos vivem sem água tratada enquanto tarifas acumulam alta superior a 50%

Indicadores revelam baixa cobertura de abastecimento, perdas elevadas na distribuição e acesso limitado ao saneamento, especialmente no interior do estado

Foto: Assessoria

Mais de 800 mil pessoas ainda vivem sem acesso à água tratada em Alagoas, cenário que evidencia os desafios do saneamento básico no estado. Ao mesmo tempo em que milhares de famílias enfrentam dificuldades para obter água regularmente, as tarifas cobradas pelo serviço registraram aumento superior a 50% nos últimos anos, intensificando o debate sobre a qualidade e a eficiência da prestação do serviço.

O tema ganhou destaque nesta semana durante visita do prefeito de Maceió e pré-candidato ao Governo de Alagoas, JHC (PSDB), ao assentamento Boa Sorte, no povoado Pai Mané, em Dois Riachos. Na comunidade, moradores relataram dificuldades diárias para conseguir água e acesso a outros serviços essenciais.

Cobertura ainda está abaixo da média desejada

Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) mostram que a cobertura de abastecimento de água em Alagoas alcança cerca de 73,3% da população, índice inferior ao de diversos estados brasileiros.

A situação é ainda mais preocupante na zona rural. Enquanto aproximadamente 81% da população urbana possui acesso à rede de abastecimento, milhares de moradores do campo ainda dependem de cisternas, caminhões-pipa, poços artesianos ou até de fontes naturais para suprir necessidades básicas.

Segundo estimativas apresentadas durante a visita, mais de 800 mil alagoanos permanecem sem abastecimento regular de água tratada.

Quase 67% da água é perdida antes de chegar às casas

Outro dado que chama atenção é o elevado índice de perdas na distribuição.

Levantamentos apontam que 66,9% da água tratada produzida no estado não chega ao consumidor, sendo desperdiçada em razão de vazamentos, ligações clandestinas, falhas na rede de distribuição e problemas operacionais.

Especialistas em saneamento afirmam que a redução dessas perdas representa uma das principais formas de ampliar o abastecimento sem necessidade imediata de aumentar a produção de água.

Tarifa aumentou mais de 50%

Enquanto parte da população ainda aguarda a chegada da água encanada, o custo do serviço também aumentou.

Antes da concessão dos serviços de distribuição de água e esgotamento sanitário da Região Metropolitana de Maceió à BRK Ambiental, em 2021, a tarifa mínima para consumo de até 10 metros cúbicos era de R$ 49,70.

Atualmente, esse valor passou para R$ 76,40, representando uma alta nominal superior a 53%.

Levantamentos nacionais também colocaram Maceió entre as capitais com a água mais cara do país, ampliando os questionamentos sobre a relação entre reajustes tarifários e expansão dos serviços.

Esgotamento sanitário também preocupa

Os desafios do saneamento vão além do abastecimento de água.

Segundo os indicadores apresentados, apenas 22,3% da população alagoana possui acesso à rede de coleta de esgoto.

No meio rural, o índice é ainda menor: cerca de 3,3% dos moradores contam com atendimento por rede de esgotamento sanitário, o que aumenta os riscos de contaminação ambiental e de doenças relacionadas à falta de saneamento.

Especialistas destacam que a ampliação da coleta e do tratamento de esgoto é considerada uma das principais medidas para reduzir internações por doenças de veiculação hídrica e melhorar os indicadores de saúde pública.

Moradores relatam dificuldades

Durante a visita ao assentamento Boa Sorte, JHC conversou com moradores sobre a realidade enfrentada diariamente.

Entre eles estava Irene, de 47 anos, mãe de oito filhos e avó de 14 netos. Segundo o relato, quando falta água, a família precisa recorrer a um riacho da região.

“Quando a água acaba, vamos buscar no riacho, de água salgada (salobra)”, contou.

Além da dificuldade no abastecimento, moradores também relataram problemas relacionados ao fornecimento de energia elétrica e ao acesso aos serviços de saúde.

Debate político sobre o saneamento

Durante a agenda, JHC criticou a situação do saneamento em Alagoas e afirmou que o modelo adotado para a concessão dos serviços não trouxe os resultados esperados para parte da população.

“Está faltando água pra população e sobrando incompetência do Governo de Alagoas. Criaram o problema ao entregar o saneamento pra BRK sem pensar na qualidade do serviço. Pior: aumentou a conta. É muito descaso”, declarou.

A BRK Ambiental é responsável pela distribuição de água e pelos serviços de esgotamento sanitário na Região Metropolitana de Maceió desde julho de 2021, enquanto a Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal) continua responsável pela captação e pelo tratamento da água antes da distribuição.

Universalização ainda é desafio

O novo marco legal do saneamento básico estabelece metas para que o Brasil alcance, até 2033, 99% da população com acesso à água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto.

Em Alagoas, entretanto, os indicadores mostram que ainda há um longo caminho para atingir esses objetivos, especialmente no interior do estado, onde comunidades continuam convivendo diariamente com a falta de infraestrutura básica e acesso limitado aos serviços de saneamento.

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