A Polícia Civil de São Paulo prendeu, nesta terça-feira (26), um homem apontado como falso médico durante a Operação Hipócrates II, ação que apura um esquema de exercício ilegal da medicina em um hospital particular da zona leste da capital paulista. O caso ganhou ainda mais repercussão após a divulgação de imagens que mostram o suspeito aplicando uma injeção em uma mulher no meio da rua, ao lado de um carro.
O preso foi identificado em reportagens como Marcos Phelipe de Barros. Segundo a investigação, ele teria usado a identidade profissional de um médico verdadeiro para realizar atendimentos e procedimentos sem autorização legal. A Polícia Civil também apura a participação de outro suspeito, identificado como Mike, que estaria foragido no Chile.
Aplicação no meio da rua chamou atenção da polícia
O vídeo que motivou forte repercussão mostra o suspeito encontrando uma mulher na calçada de um condomínio. Nas imagens, ele se aproxima da paciente, mostra o produto e aplica a injeção no braço dela, em ambiente aberto, sem a estrutura esperada para um procedimento de saúde.
De acordo com informações divulgadas pelo Metrópoles, a substância aplicada seria Mounjaro, medicamento à base de tirzepatida, usado sob prescrição médica para diabetes tipo 2 e, desde nova indicação aprovada pela Anvisa, também para controle crônico de peso em situações específicas, associado a dieta e atividade física.
A cena reforçou uma das frentes da investigação: a suspeita de que o homem também oferecia serviços ligados à estética e emagrecimento fora do ambiente hospitalar, inclusive de forma informal.
Dois anos de atendimentos e suspeita de mortes
Segundo a Polícia Civil, os investigados teriam atuado por cerca de dois anos em um hospital particular de São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo. Reportagens publicadas nesta terça apontam que os dois suspeitos teriam feito cerca de 2 mil atendimentos na unidade, mesmo sem habilitação para exercer a medicina.
A apuração também investiga a morte de nove pacientes, que teriam ocorrido após supostos erros, atrasos em procedimentos e falhas graves nos atendimentos. O UOL informou que a polícia já teria constatado responsabilidade em duas das mortes, enquanto os demais casos seguem em análise.
Entre os casos citados pelas investigações está o de uma paciente com problema cardíaco que, segundo os relatos, teria esperado horas por um exame necessário. Outro episódio envolve uma mulher diagnosticada com dengue, que teve parada cardíaca e teria sido submetida a uma manobra de ressuscitação feita de forma irregular, resultando em lesões internas graves.
Hospital também está sob investigação
A Operação Hipócrates II não mira apenas os homens apontados como falsos médicos. A Justiça determinou o afastamento da gestora operacional e do diretor clínico do hospital durante o andamento das investigações.
Segundo o delegado José Mariano de Araújo Filho, responsável pelo caso, há indícios de omissão e negligência por parte da unidade hospitalar. A apuração busca esclarecer se a direção sabia da atuação irregular e se houve falhas no controle interno para permitir que pessoas sem autorização legal atendessem pacientes.
Em nota às reportagens, veículos como CNN, Metrópoles, Veja e UOL informaram que procuraram o hospital e as defesas dos envolvidos, mas não haviam recebido retorno até a publicação das matérias.
Mandados foram cumpridos em SP e na Grande São Paulo
A operação foi conduzida pelo 22º Distrito Policial, de São Miguel Paulista, e cumpriu mandados na capital e em cidades da Grande São Paulo, incluindo São Bernardo do Campo, Guarulhos, Poá e Mogi das Cruzes.
Ao todo, foram expedidos sete mandados de busca e apreensão, dois mandados de prisão temporária e outras medidas cautelares determinadas pela Justiça. Um dos investigados foi preso; o outro segue sendo procurado.
Uso de identidade de médicos verdadeiros
As investigações apontam que os suspeitos teriam utilizado nomes e registros profissionais de médicos reais do interior paulista. No caso de Marcos Phelipe, a polícia afirma que ele usava a identidade de Nicolas Joseph de La Mata, médico verdadeiro de Catanduva, que teve documentos copiados e, segundo a corporação, não tinha conhecimento do uso indevido.
A Folha de S.Paulo já havia noticiado, em dezembro de 2025, que a Polícia Civil investigava dois homens sem formação nem registro profissional que teriam usado dados de médicos verdadeiros para atuar no Hospital Jardim Helena. Na época, a apuração mencionava mais de 8 mil prontuários e ao menos oito mortes sob investigação, o que mostra que o caso vinha sendo acompanhado pela polícia antes da nova fase da operação.
O que diz a lei
O exercício ilegal da medicina é crime previsto no artigo 282 do Código Penal. A legislação estabelece pena de detenção de seis meses a dois anos para quem exerce a profissão de médico, dentista ou farmacêutico sem autorização legal ou excedendo os limites permitidos. Se houver finalidade de lucro, também pode haver multa.
No caso investigado em São Paulo, a situação pode ganhar maior gravidade se a polícia comprovar ligação direta entre os atendimentos irregulares e as mortes dos pacientes, além de eventual participação ou omissão de gestores da unidade hospitalar.
Investigação segue em andamento
A Polícia Civil agora tenta localizar o segundo investigado, apontado como foragido no Chile, e aprofundar a análise de prontuários, documentos, pagamentos e responsabilidades dentro do hospital.
O caso expõe uma sequência de falhas que, segundo a investigação, pode ter permitido que pessoas sem formação médica atendessem pacientes por longo período. Mais do que a imagem chocante da injeção aplicada na calçada, a operação levanta uma pergunta central: como um esquema desse tipo conseguiu funcionar por tanto tempo dentro de uma unidade de saúde?
A apuração segue em andamento, e os investigados devem responder conforme o avanço das provas reunidas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público.

Deixe um comentário