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Departamento de Justiça dos EUA investiga escritora que acusou Trump de estupro

Apuração mira possível falso testemunho de E. Jean Carroll em processos civis vencidos contra o presidente norte-americano; defesa de Trump contesta acusações, enquanto escritora mantém versão sobre abuso ocorrido nos anos 1990

E. Jean Carroll e Donald Trump — Foto: Reprodução

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos abriu uma investigação criminal para apurar se a escritora e ex-colunista E. Jean Carroll cometeu perjúrio durante depoimentos relacionados aos processos civis movidos contra Donald Trump. A investigação representa um novo capítulo em uma disputa judicial que se arrasta há anos e envolve acusações de abuso sexual, difamação, indenizações milionárias e recursos ainda em andamento.

Segundo informações divulgadas por veículos norte-americanos, a apuração está concentrada em um depoimento prestado por Carroll em 2022. Na ocasião, ela teria afirmado que não recebia financiamento externo para bancar os custos das ações contra Trump. Posteriormente, veio à tona que o bilionário Reid Hoffman, cofundador do LinkedIn, havia ajudado a custear parte das despesas jurídicas por meio de uma organização sem fins lucrativos.

Quem é E. Jean Carroll

E. Jean Carroll é uma escritora, jornalista e colunista norte-americana conhecida principalmente pelo trabalho na revista Elle, onde manteve por décadas a coluna de aconselhamento “Ask E. Jean”. Com estilo direto e bem-humorado, ela se tornou uma figura conhecida no jornalismo de comportamento nos Estados Unidos.

O nome de Carroll ganhou repercussão internacional em 2019, quando ela publicou um livro de memórias no qual acusou Donald Trump de tê-la violentado em meados da década de 1990. De acordo com a escritora, o episódio teria ocorrido no provador da loja de departamentos Bergdorf Goodman, em Manhattan, Nova York.

Trump sempre negou a acusação. Ao longo dos anos, afirmou que não conhecia Carroll, disse que ela não fazia seu “tipo” e alegou que a história teria sido inventada para promover o livro da autora. Essas declarações se tornaram parte central dos processos de difamação movidos pela escritora.

Como surgiu a história

A acusação veio a público em 2019, durante a divulgação do livro de Carroll. Ela relatou que teria encontrado Trump casualmente em uma loja de luxo de Nova York, onde os dois teriam conversado antes de entrar em uma área de provadores. Segundo a versão da escritora, o encontro terminou em agressão sexual.

Após a publicação do relato, Trump reagiu publicamente negando o episódio. As declarações do então presidente levaram Carroll a entrar com ações judiciais, alegando que, além de ter sido abusada sexualmente, também teve sua reputação atacada pelas falas dele.

Os processos tramitaram na esfera civil. Isso significa que Trump não foi condenado criminalmente nem recebeu pena de prisão nesses casos. As decisões trataram de responsabilidade civil e pagamento de indenizações.

O que os júris decidiram

Em 2023, um júri federal em Manhattan considerou Trump responsável civilmente por abuso sexual e difamação contra Carroll. Ele foi condenado a pagar US$ 5 milhões em indenização. O júri, no entanto, não concluiu que Trump cometeu estupro conforme a definição legal analisada no julgamento, mas reconheceu a responsabilidade por abuso sexual.

No ano seguinte, outro júri determinou que Trump pagasse US$ 83,3 milhões em um segundo processo de difamação. Essa ação tratava de declarações feitas por ele em 2019, após Carroll tornar pública a acusação. Trump também nega irregularidades nesse caso e recorre das decisões.

O ponto central da nova investigação

A nova apuração do Departamento de Justiça não reabre diretamente o julgamento sobre a acusação de abuso sexual. O foco agora é saber se Carroll mentiu sob juramento ao falar sobre o financiamento de seus processos.

A tese investigada envolve a declaração feita em 2022, quando a escritora teria dito que ninguém estava pagando suas despesas jurídicas. Mais tarde, seus advogados comunicaram ao tribunal que parte dos custos havia sido coberta por uma entidade ligada ao bilionário Reid Hoffman.

A revelação foi usada pela equipe de Trump para questionar a credibilidade da escritora. Na época, os advogados de Carroll afirmaram que ela não havia se reunido nem conversado com representantes da organização responsável pelo apoio financeiro.

Por que Chicago entrou no caso

Embora os processos civis envolvendo Carroll e Trump tenham ocorrido em Nova York, a investigação criminal foi encaminhada a promotores federais em Chicago. O motivo apontado é que a organização ligada ao financiamento de parte dos custos jurídicos teria conexão com a cidade.

A apuração ainda está em fase inicial. Até o momento, a abertura de investigação não significa que Carroll será denunciada criminalmente. Também não representa, por si só, uma conclusão de culpa. Caberá aos promotores avaliar se há elementos suficientes para apresentar ou não acusações formais.

Recusa de Todd Blanche

Outro ponto relevante é a recusa do procurador-geral adjunto Todd Blanche de atuar diretamente no caso. Ele foi um dos advogados pessoais de Trump em recursos relacionados aos processos movidos por Carroll. Por esse vínculo anterior, Blanche não participou das discussões sobre a investigação.

A condução da apuração ficou sob responsabilidade de outros integrantes do Departamento de Justiça e de promotores federais.

Disputa judicial continua

Mesmo após as decisões favoráveis a Carroll, a batalha jurídica entre as partes ainda não terminou. Trump recorre das condenações e busca reverter os valores impostos pelos júris. Um dos recursos relacionados ao caso de US$ 5 milhões foi levado à Suprema Corte dos Estados Unidos.

Enquanto isso, a nova investigação criminal aumenta a tensão em torno de um dos casos mais conhecidos envolvendo Trump e acusações de abuso sexual. Para aliados do presidente, a apuração levanta dúvidas sobre a condução dos processos vencidos por Carroll. Para críticos, o movimento reacende questionamentos sobre possível uso político do Departamento de Justiça contra adversários do presidente.

O que pode acontecer agora

A investigação deve avaliar documentos, depoimentos e comunicações relacionadas ao financiamento das ações judiciais. Caso os promotores entendam que houve mentira deliberada sob juramento, Carroll poderá enfrentar acusações criminais por perjúrio. Se não houver provas suficientes, o caso pode ser encerrado sem denúncia.

Por ora, E. Jean Carroll segue como vencedora de duas ações civis contra Trump, enquanto o presidente continua negando as acusações e tentando reverter os resultados nos tribunais. A nova apuração adiciona mais uma camada jurídica e política a uma disputa que já dura vários anos e permanece no centro do debate público nos Estados Unidos.

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