O Partido Democrata conquistou a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado dos Estados Unidos nas eleições de meio de mandato realizadas nesta terça-feira (3), segundo projeções da imprensa americana. O resultado representa uma derrota expressiva para o presidente Donald Trump e pode dificultar a aprovação de propostas do governo no restante do mandato.
Com a apuração ainda em andamento, os democratas apareciam com 228 das 435 cadeiras da Câmara, enquanto os republicanos somavam 139. No Senado, a oposição já havia garantido pelo menos 54 das 100 vagas, consolidando o controle da Casa.
As chamadas midterms são realizadas na metade do mandato presidencial e renovam parte significativa do Congresso. Neste ano, a votação foi marcada pela avaliação do governo Trump, especialmente diante da insatisfação de eleitores com o custo de vida, os preços dos combustíveis e a política externa americana.
Trump admite trabalhar com a oposição
Diante das projeções desfavoráveis, Trump tentou minimizar o impacto do resultado. Em publicação nas redes sociais, afirmou que seu nome não estava nas cédulas e declarou que, caso estivesse, os republicanos teriam vencido de forma expressiva.
Em entrevista ao The New York Times, ainda na noite de terça-feira, o presidente afirmou estar disposto a aceitar o resultado e trabalhar com os democratas. Segundo ele, existe a possibilidade de alcançar entendimentos com a oposição.
A declaração ocorre em um cenário no qual os democratas passam a ter maior capacidade de influenciar a agenda legislativa e de dificultar iniciativas defendidas pela Casa Branca.
Vitórias democratas em estados tradicionalmente republicanos
A disputa pelo Senado teve resultados importantes para os democratas, que conseguiram avançar em estados historicamente favoráveis aos republicanos.
No Texas, James Talarico, de 37 anos, conquistou uma cadeira ao derrotar o republicano Ken Paxton, procurador-geral do estado. A vitória representa uma mudança significativa em um território que, há décadas, tem sido dominado eleitoralmente pelos republicanos.
Em Ohio, Sherrod Brown venceu Jon Husted. No Kansas, Adam Hamilton superou Roger Marshall. Os dois republicanos derrotados tentavam permanecer no Senado.
Em Iowa, Josh Turek também garantiu uma vitória para os democratas ao derrotar Ashley Hinson. A cadeira estava anteriormente ocupada pela republicana Joni Ernst, que não concorreu à reeleição.
Outro resultado de destaque ocorreu na Carolina do Sul. Annie Andrews venceu Darline Graham e conquistou uma vaga em um estado onde os democratas não elegiam um senador desde 1998.
Na Carolina do Norte, o ex-governador Roy Cooper derrotou Michael Whatley, candidato apoiado por Trump, e retirou dos republicanos uma cadeira que estava sob controle do partido.
Novos nomes e mudanças na composição do Senado
Em New Hampshire, Chris Pappas venceu o ex-senador republicano John Sununu e manteve a cadeira com os democratas após a aposentadoria de Jeanne Shaheen. Com a eleição, Pappas deverá se tornar o primeiro homem abertamente gay a integrar o Senado americano.
Em Michigan, a disputa também chamou atenção pelo debate sobre a relação entre Estados Unidos e Israel. O democrata Abdul El-Sayed, de 42 anos, apresentou críticas contundentes ao governo israelense e, caso seja eleito, poderá se tornar o primeiro senador muçulmano do país.
Republicanos ligados a Trump classificaram candidatos democratas como radicais, antiamericanos e comunistas. Os adversários rejeitaram as acusações e afirmaram que os ataques fazem parte da estratégia política do presidente.
Popularidade de Trump pesou na votação
O resultado segue uma tendência histórica desfavorável ao partido que ocupa a Casa Branca. Desde a Segunda Guerra Mundial, a legenda do presidente perdeu cadeiras no Congresso na maioria das eleições de meio de mandato, com apenas duas exceções.
A popularidade de Trump também esteve no centro da campanha. Pesquisas realizadas nas semanas anteriores à votação indicavam insatisfação com a situação econômica, sobretudo em relação ao aumento do custo de vida.
As tarifas sobre produtos importados, algumas posteriormente derrubadas pela Justiça, e a decisão de atacar o Irã, em fevereiro, foram apontadas como fatores que contribuíram para a elevação dos preços.
Na tentativa de mobilizar seus apoiadores, Trump realizou mais de 20 comícios desde o início de outubro, concentrados principalmente em estados nos quais havia vencido com facilidade na eleição presidencial de 2024.
Durante a campanha, o presidente também anunciou a intenção de interromper o repasse anual de US$ 3,8 bilhões em assistência a Israel. A medida, porém, enfrenta obstáculos, já que o auxílio está previsto em um acordo cuja vigência se estende até 2028.
Falhas em equipamentos e monitoramento eleitoral
A votação também registrou problemas técnicos em diferentes regiões dos Estados Unidos. Máquinas utilizadas para a leitura de cédulas de papel apresentaram falhas em condados da Geórgia, Iowa, Mississippi e Nova York, provocando atrasos na votação e na contagem dos votos.
Especialistas eleitorais ressaltaram, contudo, que problemas isolados desse tipo não costumam comprometer os resultados, uma vez que os sistemas contam com equipamentos de reserva e outros mecanismos de segurança.
O Departamento de Justiça informou ter mobilizado cerca de mil fiscais e observadores eleitorais nos 50 estados, em uma operação que classificou como a maior já realizada em um único dia de votação no país.
A iniciativa foi criticada por democratas, que apontaram o risco de intimidação dos eleitores. Uma análise da Reuters identificou que aproximadamente dois terços das jurisdições incluídas na lista do departamento haviam votado em Kamala Harris na eleição presidencial de 2024.

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