A defesa do rapper Oruam alegou, nesta quinta-feira (25), que o artista apresenta um quadro de tuberculose pulmonar e solicitou à Justiça do Rio de Janeiro a revogação da prisão preventiva. O pedido foi embasado em laudos médicos particulares que apontam tosse crônica, perda de peso e lesões nos pulmões, além da necessidade de isolamento para evitar a transmissão da doença.
No entanto, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) negou o pedido. Para os desembargadores, os documentos apresentados não têm força probatória suficiente por não terem sido emitidos por uma instituição oficial do Estado. O tribunal destacou ainda que, caso Oruam se apresente voluntariamente às autoridades, deverá ser encaminhado ao sistema médico-hospitalar prisional para avaliação e tratamento.
O caso trouxe à tona dúvidas sobre a tuberculose, uma doença que, embora antiga, continua sendo um problema de saúde pública no Brasil. Abaixo, esclarecemos os principais pontos sobre a enfermidade.
O que é a tuberculose?
A tuberculose é uma doença infecciosa e contagiosa causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis, também conhecida como bacilo de Koch. Embora possa atingir diferentes órgãos do corpo, mais de 85% dos casos ocorrem nos pulmões, caracterizando a tuberculose pulmonar.
Segundo a pneumologista Tatiana Galvão, coordenadora da Comissão de Tuberculose da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), a transmissão acontece pelo ar.
“Quando um paciente tosse, espirra, fala ou canta, elimina pequenas partículas contendo o bacilo. Se outra pessoa inalar essas partículas, pode ocorrer a infecção.”
O contágio ocorre principalmente em ambientes fechados e com convivência prolongada, como residências, locais de trabalho, prisões, abrigos e instituições de longa permanência.
Nem todo contato vira doença
Entrar em contato com a bactéria não significa necessariamente desenvolver a tuberculose. Em muitas pessoas, o sistema imunológico consegue controlar o bacilo, mantendo-o “adormecido” no organismo. Essa condição é chamada de infecção latente por tuberculose.
A doença ativa pode surgir meses ou até anos depois, caso ocorra uma queda da imunidade.
Quem tem maior risco?
Grupos mais vulneráveis ao desenvolvimento da doença ativa incluem:
- Pessoas vivendo com HIV
- Pacientes em tratamento contra câncer
- Transplantados
- Usuários de medicamentos imunossupressores
- Idosos e crianças pequenas
- Pessoas em situação de desnutrição
- Indivíduos privados de liberdade
Segundo Tatiana Galvão, a doença também costuma acometer adultos jovens, justamente na fase economicamente ativa da vida — perfil de Oruam, que tem 24 anos.
Sintomas: tosse prolongada é o principal sinal
O sintoma mais característico da tuberculose pulmonar é uma tosse persistente por três semanas ou mais. Inicialmente seca, pode evoluir para produção de catarro e, em alguns casos, apresentar sangue.
Outros sinais importantes incluem:
- Perda de peso sem explicação
- Febre, principalmente no fim da tarde
- Suor noturno intenso
- Cansaço excessivo
- Perda do apetite
- Fraqueza
“A perda de peso é um dos sintomas que mais chamam atenção. O paciente emagrece sem fazer dieta ou qualquer mudança na alimentação”, afirma a pneumologista.
Como afeta os pulmões?
Depois de chegar aos pulmões, o bacilo provoca uma reação inflamatória. O organismo tenta combater a infecção, mas nem sempre consegue eliminar completamente a bactéria.
Como consequência, podem surgir inflamações, nódulos e cavidades — áreas de destruição do tecido pulmonar. Essas lesões costumam aparecer na parte superior dos pulmões, onde a bactéria encontra condições mais favoráveis para se multiplicar.
Se o diagnóstico demora, a destruição pulmonar pode se tornar extensa e comprometer a função respiratória. Em pessoas com imunidade muito baixa, a bactéria pode se espalhar pela corrente sanguínea, causando a tuberculose miliar, uma forma grave que pode atingir fígado, baço, rins, cérebro e ossos.
Diagnóstico: exames e rapidez
O diagnóstico combina informações clínicas, exames de imagem e testes laboratoriais. Os principais exames são:
- Radiografia de tórax
- Baciloscopia do escarro
- Teste rápido molecular – identifica o DNA da bactéria em cerca de duas horas
- Cultura do escarro – exame confirmatório, mas o resultado pode levar até 45 dias
“A combinação entre sintomas típicos, alterações no raio-X e teste molecular positivo já permite iniciar imediatamente o tratamento”, explica Tatiana Galvão.
Tuberculose tem cura?
Sim. O tratamento é totalmente gratuito pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e apresenta elevada taxa de sucesso quando seguido corretamente.
O esquema terapêutico padrão dura seis meses:
- Primeiros 2 meses: combinação de quatro medicamentos (rifampicina, isoniazida, pirazinamida e etambutol) em um só comprimido
- Últimos 4 meses: duas dessas substâncias
A especialista alerta que interromper o tratamento antes do tempo é um dos principais problemas.
“Quando o paciente abandona a medicação, a microbactéria pode desenvolver resistência aos antibióticos, tornando o tratamento muito mais difícil.”
Por isso, alguns pacientes recebem acompanhamento direto das equipes de saúde, garantindo que os comprimidos sejam tomados corretamente.
Precisa ficar internado?
Na maioria dos casos, não. O tratamento é ambulatorial, com acompanhamento periódico nas unidades de saúde. A internação é reservada para situações graves, como:
- Insuficiência respiratória
- Grande sangramento pulmonar
- Tuberculose disseminada
- Desnutrição severa
Como evitar a transmissão?
Após o início adequado do tratamento, a capacidade de transmissão da doença cai rapidamente. Autoridades de saúde investigam pessoas que tiveram contato próximo com o paciente para identificar possíveis novos casos.
Familiares e conviventes podem realizar exames como radiografia de tórax, teste tuberculínico (PPD) ou exames de sangue. Quando necessário, recebem medicamentos preventivos.
A principal forma de prevenção contra as formas mais graves da doença é a vacina BCG, aplicada nos primeiros dias de vida. Ela não impede completamente a tuberculose pulmonar, mas reduz significativamente o risco de meningite tuberculosa e tuberculose miliar, especialmente em crianças.
Tuberculose ainda é um problema no Brasil
Apesar dos avanços, a tuberculose nunca deixou de circular no país. Segundo a especialista, houve aumento da incidência e da mortalidade durante e após a pandemia de Covid-19, consequência da redução dos diagnósticos precoces e da interrupção de tratamentos.
A orientação é clara: qualquer pessoa com tosse persistente por mais de três semanas, especialmente acompanhada de emagrecimento, febre ou suor noturno, deve procurar atendimento médico.
“O mais importante é lembrar que a tuberculose é uma doença tratável, curável e que pode ser controlada com diagnóstico precoce e adesão ao tratamento”, destaca Tatiana Galvão.

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