Morcegos de pequeno porte estão ajudando cientistas a investigar um dos grandes desafios da biologia: entender por que algumas espécies conseguem viver por décadas sem apresentar os mesmos níveis de doenças associados ao envelhecimento observados em outros mamíferos.
Um novo estudo publicado na revista Nature analisou oito espécies do gênero Myotis e encontrou alterações genéticas associadas à longevidade, à resposta do organismo contra vírus e a mecanismos relacionados à resistência ao câncer. O trabalho foi publicado em 26 de agosto de 2026.
O gênero chama atenção porque reúne animais de tamanho semelhante, mas com diferenças extraordinárias na expectativa de vida. O Myotis nigricans, por exemplo, pode viver cerca de sete anos, enquanto o Myotis brandtii chega a aproximadamente 42 anos — uma diferença de seis vezes.
O que o DNA revelou
Para tentar descobrir o que está por trás dessa diferença, os pesquisadores produziram genomas quase completos de oito espécies de Myotis e compararam as alterações acumuladas ao longo da evolução.
A análise encontrou sinais de seleção positiva em genes relacionados a processos de longevidade e a mecanismos associados ao câncer. Em termos evolutivos, isso significa que determinadas características genéticas podem ter sido favorecidas ao longo das gerações por oferecerem alguma vantagem para a sobrevivência.
Os resultados também apontaram uma conexão entre longevidade e mecanismos utilizados pelos morcegos para lidar com infecções virais. Os pesquisadores identificaram padrões diferentes de adaptação dependendo do tipo de vírus: proteínas que interagem com vírus de DNA apresentaram forte sinal de seleção positiva, enquanto genes relacionados a vírus de RNA mostraram maior variação no número de cópias.
Uma das estruturas que chamou atenção foi o PKR, uma proteína envolvida na defesa antiviral. O estudo identificou duplicações antigas desse fator imunológico dentro do gênero Myotis, indicando que essas alterações estão presentes há milhões de anos na história evolutiva desses animais.
Longevidade pode estar ligada à proteção contra o câncer
Viver por muito tempo traz um problema biológico: quanto mais tempo um organismo permanece vivo e quanto mais células possui, maior tende a ser a oportunidade para alterações celulares acumularem-se.
Esse fenômeno está relacionado ao chamado paradoxo de Peto. Em teoria, animais maiores e de vida longa deveriam apresentar taxas muito maiores de câncer. Na prática, porém, a incidência não aumenta proporcionalmente entre as espécies, o que sugere que animais longevos desenvolveram mecanismos capazes de controlar melhor esse risco.
Foi justamente nesse ponto que o estudo encontrou pistas importantes nos morcegos.
Os pesquisadores observaram que a evolução da longevidade em diferentes espécies de Myotis esteve acompanhada por sinais de seleção em vias biológicas relacionadas ao câncer. Para os cientistas, isso indica que a capacidade de controlar o surgimento e a proliferação de células potencialmente perigosas pode ter evoluído junto com a capacidade de viver mais.
Células danificadas podem ser eliminadas
Os pesquisadores também realizaram experimentos com células do Myotis lucifugus, uma das espécies de vida mais longa analisadas.
Quando submetidas a danos no DNA, as células apresentaram uma resposta diferente daquela esperada de um simples aumento dos mecanismos de reparo. Em determinadas condições, houve aumento da apoptose, processo pelo qual uma célula danificada é eliminada pelo próprio organismo.
Essa estratégia pode representar uma vantagem importante.
Em vez de permitir que uma célula gravemente danificada continue se multiplicando e acumule novas alterações, o organismo pode interromper seu ciclo celular e eliminá-la. Isso reduz a possibilidade de que células defeituosas deem origem a tumores.
Nos experimentos, as células do M. lucifugus apresentaram aumento de mecanismos relacionados à interrupção do ciclo celular e à morte celular, enquanto algumas vias relacionadas à divisão e ao crescimento celular foram reduzidas após o dano ao DNA.
Sistema imunológico e envelhecimento podem ter a mesma origem
Uma das conclusões mais interessantes do trabalho é que características aparentemente diferentes — como resistência a vírus, longevidade e proteção contra doenças relacionadas ao envelhecimento — podem estar conectadas.
Os pesquisadores levantam a possibilidade de que adaptações inicialmente favorecidas pela necessidade de lidar com infecções tenham produzido outros benefícios para o organismo.
Em outras palavras, uma alteração genética que ajuda um morcego a controlar uma infecção também pode contribuir, direta ou indiretamente, para a manutenção das células e para a prevenção de doenças associadas ao envelhecimento.
O estudo descreve essa relação como um exemplo de pleiotropia, quando uma mesma alteração genética influencia diferentes características do organismo.
Descoberta não significa que exista um “gene da longevidade”
Apesar dos resultados, os pesquisadores não identificaram um único gene responsável por fazer os morcegos viverem mais. A longevidade é uma característica complexa, influenciada por diversos genes, processos celulares, metabolismo, ambiente e história evolutiva.
O que o estudo oferece são pistas sobre um conjunto de mecanismos que podem ter ajudado diferentes espécies de Myotis a evoluir para vidas excepcionalmente longas.
Os próprios resultados mostram que essas adaptações surgiram várias vezes ao longo da evolução dos morcegos. Entre os animais analisados, espécies como Myotis brandtii e Myotis lucifugus estão entre aquelas que apresentaram algumas das maiores mudanças evolutivas de longevidade observadas entre mamíferos.
O que isso pode ensinar aos seres humanos?
Os resultados ainda estão muito distantes de uma aplicação médica direta em humanos. Não é possível, por exemplo, simplesmente reproduzir nos seres humanos as alterações genéticas encontradas nos morcegos e esperar o mesmo efeito.
A importância da pesquisa está em outro ponto: compreender como diferentes espécies conseguiram evoluir mecanismos capazes de manter a integridade celular por períodos extraordinariamente longos.
Ao estudar como os morcegos controlam infecções, respondem a danos no DNA e eliminam células comprometidas, os cientistas podem ampliar o conhecimento sobre os processos biológicos envolvidos no envelhecimento e no desenvolvimento do câncer.
A pesquisa reforça, assim, uma hipótese cada vez mais estudada pela ciência: viver mais não depende apenas de evitar o envelhecimento, mas também de desenvolver mecanismos eficientes para controlar os danos acumulados pelo organismo ao longo da vida.

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