segunda-feira , 25 maio 2026
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Humilhação a bordo: comissário da Latam rompe silêncio após ataque racista e homofóbico em voo internacional

Passageiro chileno foi preso em Guarulhos após ofender tripulantes durante voo entre São Paulo e Frankfurt; defesa alega surto psicótico, enquanto caso reacende debate sobre racismo, segurança aérea e proteção a trabalhadores da aviação

Foto: Fabrizio Gandolfo/SOPA Images/LightRocket via Getty Images

O caso envolvendo um comissário de bordo brasileiro vítima de ofensas racistas, homofóbicas e xenofóbicas dentro de um voo da Latam ganhou novos desdobramentos após o funcionário se manifestar pela primeira vez sobre a violência sofrida. Em entrevista exibida pelo Domingo Espetacular, da Record, o tripulante afirmou que nunca havia passado por uma humilhação semelhante durante sua trajetória profissional. “Eu nunca sofri tamanho achaque, tamanha humilhação. Eu fui aviltado, eu fui violado”, declarou.

O episódio ocorreu no dia 10 de maio, durante o voo LA8070, que saiu do Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, com destino a Frankfurt, na Alemanha. Segundo a Polícia Federal, o passageiro chileno Germán Andrés Naranjo Maldini tentou abrir a porta da aeronave durante o voo e, ao ser contido pela tripulação, passou a proferir ofensas de cunho racial e homofóbico contra os profissionais. A prisão preventiva foi decretada pela Justiça Federal após comunicação formal das vítimas à PF, e o investigado foi detido em Guarulhos na sexta-feira, 15 de maio, quando retornava da Alemanha ao Brasil.

De acordo com relatos e vídeos que circularam nas redes sociais, o passageiro dirigiu insultos ao comissário, chamou o trabalhador de “macaco”, fez gestos e sons imitando o animal, além de associar de forma ofensiva a cor da pele e a nacionalidade brasileira à vítima. Também foram registradas falas de teor homofóbico. A agressão verbal, segundo a vítima, começou depois que ele interveio para conter o passageiro, que discutia com outra comissária e teria colocado a mão na alavanca da porta da aeronave.

A fala do comissário expõe uma dimensão que vai além do boletim policial. Para ele, o ataque não foi apenas uma ofensa isolada, mas uma violação direta de sua dignidade. “Ele cometeu três crimes contra mim, que foram atrozes, que machucaram, que ferem a alma”, afirmou. Desde o episódio, o funcionário permanece afastado.

A Latam informou que repudia práticas discriminatórias e violentas e declarou estar colaborando com as autoridades brasileiras. A companhia também afirmou que presta acolhimento psicológico e suporte jurídico ao funcionário vítima da agressão.

A Agência Nacional de Aviação Civil também se manifestou sobre o caso. Em nota, a Anac classificou a conduta como violenta, racista, homofóbica e incompatível com os princípios de civilidade e respeito. O órgão afirmou que atitudes discriminatórias e agressivas contra a tripulação são inadmissíveis, especialmente em ambiente operacional, onde a segurança, a integridade emocional e o respeito às orientações da equipe são fundamentais. A agência informou ainda que acompanhará a apuração e poderá adotar medidas dentro de suas competências regulatórias.

A defesa de Germán Naranjo Maldini sustenta que o chileno teria passado por um surto psicótico. Segundo os advogados, ele faz tratamento médico há anos, possui histórico de internações desde 2013 e não se lembraria do que ocorreu no voo. Em nota, a defesa afirmou que o passageiro estaria consternado, pediu desculpas ao funcionário da Latam e ao povo brasileiro e alegou que a conduta seria incompatível com sua trajetória pessoal, familiar e profissional.

A justificativa, porém, não reduz a gravidade pública do episódio. Do ponto de vista jurídico e social, a investigação segue tratando o caso como uma agressão discriminatória. No Brasil, a injúria racial passou a ser enquadrada como crime de racismo pela Lei 14.532/2023, com pena de reclusão de dois a cinco anos e multa. A legislação endureceu o tratamento penal para ofensas dirigidas à dignidade de uma pessoa em razão de raça, cor, etnia ou procedência nacional.

O caso também teve repercussão imediata no Chile. A empresa Landes, do setor pesqueiro, onde Maldini atuava como gerente comercial, anunciou a demissão do executivo após investigação interna. Em comunicado reproduzido pela imprensa chilena, a companhia informou que ele havia sido afastado preventivamente e que seu comportamento era incompatível com os valores e políticas internas de não discriminação.

A repercussão internacional ampliou o debate sobre passageiros indisciplinados em voos e sobre a vulnerabilidade de trabalhadores da aviação diante de agressões verbais, físicas e discriminatórias. A Associação Internacional de Transporte Aéreo aponta que incidentes com passageiros disruptivos têm impacto desproporcional sobre a segurança, a tripulação e os demais passageiros, podendo causar atrasos, desvios de rota e custos operacionais às companhias.

No centro do caso, porém, está um trabalhador que, enquanto cumpria sua função de segurança, foi transformado em alvo de violência racial e homofóbica. A tentativa de abrir uma porta de aeronave já representaria, por si só, um risco operacional grave. Mas os insultos que vieram depois revelaram outra camada do problema: o racismo que atravessa ambientes profissionais, inclusive aqueles altamente regulados, como a aviação.

O episódio reacende uma discussão incômoda, mas necessária: combater o racismo não é apenas punir atos extremos quando eles viralizam. É garantir que trabalhadores negros, LGBTQIA+ e brasileiros não precisem provar sua dignidade diante de câmeras, nem depender da repercussão pública para serem protegidos. A cabine de um avião, assim como qualquer local de trabalho, precisa ser um espaço de segurança — não apenas física, mas também humana.

Enquanto a investigação segue sob responsabilidade das autoridades brasileiras, o caso de Germán Naranjo Maldini se consolida como mais um exemplo de como ataques discriminatórios não podem ser tratados como simples “descontrole” ou “mal-entendido”. Para a vítima, a marca deixada não se resume ao episódio de alguns minutos em pleno voo. É a lembrança de uma violência que, como ele próprio resumiu, “fere a alma”.

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