O Instituto Hospital Carvalho Beltrão, em Coruripe, recebeu R$ 950.270.170,80 do Governo de Alagoas entre 1º de janeiro de 2015 e 21 de setembro de 2026, segundo dados do Portal da Transparência estadual. O montante coloca a instituição entre os principais destinatários privados de recursos públicos da área da Saúde no estado.
No mesmo período, foram empenhados R$ 991.311.900,63 e liquidados R$ 955.122.147,32 em favor do hospital. A maior parcela dos pagamentos, R$ 950.047.070,80, teve como fonte o Fundo Estadual de Saúde. Outros R$ 223,1 mil aparecem vinculados diretamente à Secretaria de Estado da Saúde.
O volume de recursos, isoladamente, não indica irregularidade. O Carvalho Beltrão presta serviços ao Sistema Único de Saúde (SUS) e integra a rede de atendimento hospitalar de Alagoas.
A dimensão dos valores, no entanto, ganha relevância diante de diferentes procedimentos e recomendações de órgãos de controle que, em momentos distintos, questionaram aspectos da regulação de pacientes, da assistência oncológica e dos protocolos adotados na unidade.

MP apura agendamento de cirurgias
Em novembro de 2025, o Ministério Público de Alagoas instaurou procedimento para verificar a regularidade do agendamento de cirurgias pelo SUS no Hospital Carvalho Beltrão.
A apuração teve origem em relatos relacionados à transparência das filas e ao adiamento de um procedimento cirúrgico. O promotor Maurício Mannarino Teixeira Lopes solicitou documentos médicos, informações sobre o sistema de marcação, identificação dos responsáveis pelos agendamentos e dados capazes de permitir a verificação da ordem de atendimento dos pacientes.
Também foi solicitada ao Ministério da Saúde uma auditoria sobre os agendamentos e procedimentos realizados na unidade durante 2025.
A existência do procedimento não significa que as irregularidades tenham sido comprovadas. O objetivo da investigação é justamente verificar como os atendimentos eram regulados e se os critérios adotados estavam de acordo com as regras do SUS.
Órgãos de controle questionaram atendimento oncológico
A situação do Carvalho Beltrão voltou a ser alvo de atenção em 2026 por causa da assistência oncológica.
Em fevereiro, MPF, MP de Alagoas e Defensoria Pública da União (DPU) expediram quatro recomendações conjuntas diante de problemas identificados na rede estadual de tratamento contra o câncer. Uma delas determinou a solicitação de auditoria do Departamento Nacional de Auditoria do SUS (Denasus) no Hospital Carvalho Beltrão.
A auditoria deveria avaliar a capacidade instalada da unidade, a estrutura disponível e o cumprimento das exigências para serviços de média e alta complexidade em oncologia. Os órgãos também solicitaram listas atualizadas de pacientes que aguardavam atendimento, com informações sobre o tempo de espera e os procedimentos necessários.
Segundo os órgãos de controle, o hospital havia sido incluído no Plano Estadual de Oncologia e iniciado procedimentos em 2025, mas posteriormente interrompeu de forma abrupta serviços de quimioterapia. A situação teria provocado transferências emergenciais e aumento das filas em outros serviços da rede.
Em 2025, o MPF já havia solicitado ao Estado informações sobre a inclusão do Carvalho Beltrão e do Hospital Metropolitano na rede estadual de oncologia, além de documentos sobre as pactuações e habilitações junto ao Ministério da Saúde.
A própria rede estadual previa a participação do Carvalho Beltrão na assistência oncológica. Documentos oficiais indicavam o hospital como novo serviço de referência para determinadas regiões de Alagoas.
Hospital também foi questionado por protocolo obstétrico
Outro procedimento envolve a realização de episiotomia, corte cirúrgico feito na região do períneo durante alguns partos.
O Ministério Público Federal recomendou ao Hospital Carvalho Beltrão que as gestantes fossem previamente informadas sobre os riscos do procedimento, que houvesse consentimento por escrito e que o médico justificasse individualmente, de forma detalhada, a necessidade da intervenção.
O Ministério Público de Alagoas também registrou a existência de procedimento para averiguar a regularidade da prática. Segundo o órgão, a recomendação surgiu em um contexto de preocupação com a realização de episiotomias sem protocolos clínicos e sem consentimento adequado das pacientes.
O procedimento e as recomendações não equivalem a uma condenação do hospital, mas demonstram que os protocolos assistenciais da unidade foram submetidos à análise dos órgãos de fiscalização.
Quase três quartos dos pagamentos ocorreram desde 2023
Dos R$ 950,27 milhões pagos ao hospital desde 2015, R$ 694,38 milhões foram desembolsados entre janeiro de 2023 e setembro de 2026.
O valor representa aproximadamente 73% de todos os pagamentos registrados no período analisado.
Somente em 2026, até 21 de setembro, os pagamentos chegaram a R$ 196,84 milhões, segundo os dados apresentados no Portal da Transparência estadual.
A concentração de recursos nos anos mais recentes ocorre paralelamente à expansão dos serviços oferecidos pelo hospital. O Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) atualmente registra o Carvalho Beltrão entre as unidades com serviço especializado em oncologia em Alagoas.
Recursos públicos e fiscalização
Os pagamentos realizados pelo Estado correspondem à prestação de serviços de saúde dentro da estrutura do SUS e, portanto, não constituem, por si só, evidência de desvio ou irregularidade.
Ao mesmo tempo, os procedimentos instaurados por Ministério Público e outros órgãos de controle mostram que diferentes aspectos da atuação da unidade vêm sendo analisados, especialmente em relação à regulação de pacientes, continuidade do atendimento oncológico e protocolos assistenciais.
O MPF, o MPAL e a DPU recomendaram ainda que o Estado definisse de forma fundamentada a manutenção ou não do Carvalho Beltrão na Rede de Prevenção e Controle do Câncer, levando em consideração a capacidade da unidade e a continuidade do tratamento dos pacientes.
O espaço permanece aberto para manifestação do Instituto Hospital Carvalho Beltrão e da Secretaria de Estado da Saúde de Alagoas sobre os valores recebidos, os contratos, os procedimentos de fiscalização e as investigações mencionadas.

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