quarta-feira , 23 setembro 2026
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Escândalos envolvendo monges abalam templos budistas na Tailândia

Casos recentes envolvem relações sexuais, suspeitas de desvio de doações, drogas e materiais proibidos; episódios reacendem debate sobre fiscalização e administração dos templos

Reprodução

Uma sequência de escândalos envolvendo monges budistas de alta hierarquia tem provocado repercussão na Tailândia e levantado questionamentos sobre a fiscalização dentro de templos e sobre a administração de recursos provenientes de doações.

O caso mais recente envolve Phra Wachirayan Wi, de 66 anos, antigo abade do templo real Wat Phutthaisawan, em Ayutthaya. O religioso foi preso em setembro após uma investigação que apura suspeitas de desvio de recursos destinados ao templo e lavagem de dinheiro. Durante a apuração, imagens de câmeras de segurança que mostram o monge em um encontro íntimo com uma mulher dentro da residência monástica foram divulgadas pela imprensa tailandesa.

Na tradição budista seguida pelos monges na Tailândia, o celibato e a renúncia a bens materiais fazem parte dos compromissos monásticos. Após a prisão, Phra Wachirayan foi destituído das vestes monásticas. A mulher que aparece nas imagens também foi presa sob suspeita de participação no esquema financeiro investigado.

Investigação aponta milhões em doações que não chegaram ao templo

Segundo a polícia tailandesa, a investigação começou em julho após uma denúncia anônima sobre possíveis condutas inadequadas e movimentações financeiras relacionadas ao templo.

Os investigadores identificaram duas fontes de recursos vinculadas a recibos de doações emitidos em nome do Wat Phutthaisawan. Uma delas envolvia cerca de 89 milhões de baht destinados a reformas do templo, enquanto outra correspondia a aproximadamente 2,8 milhões de baht obtidos com a venda de amuletos e outros objetos considerados sagrados.

De acordo com o responsável pela investigação, nenhum dos valores teria sido depositado na conta oficial do templo. A polícia também informou ter apreendido ativos avaliados em aproximadamente 215 milhões de baht, incluindo barras de ouro, joias, relógios e documentos de propriedades. As autoridades ainda investigam quais desses bens pertenciam ao religioso e quais poderiam estar vinculados ao templo.

Phra Wachirayan era conhecido nacionalmente pela produção e consagração de amuletos budistas, um mercado de grande importância econômica e cultural na Tailândia. O templo também possuía uma extensa rede de seguidores entre empresários, integrantes das forças de segurança e autoridades públicas.

Caso de chantagem envolveu outros monges

O episódio atual ocorre pouco mais de um ano depois de outro escândalo que atingiu religiosos de alto escalão.

Em 2025, a polícia tailandesa prendeu Wilawan Emsawat, conhecida como Sika Golf, acusada de registrar encontros íntimos com monges e posteriormente utilizar fotos e vídeos para exigir dinheiro em troca do silêncio.

Segundo as autoridades, foram encontrados aproximadamente 80 mil arquivos de imagens e vídeos em dispositivos relacionados à investigação. A polícia também apontou movimentações financeiras de cerca de 385 milhões de baht, valor equivalente a aproximadamente R$ 65 milhões na conversão mencionada à época. O caso envolveu pelo menos 11 monges, segundo informações divulgadas pela imprensa.

O episódio provocou forte repercussão no país e ampliou as discussões sobre a relação entre religiosos de alta hierarquia, dinheiro e poder dentro das instituições budistas.

Templo é alvo de operação por drogas e material pornográfico

Outro caso ocorreu em janeiro deste ano, quando autoridades realizaram uma operação no centro monástico Phrom Sunthon, na província de Chonburi.

A ação ocorreu em 27 de janeiro, após denúncias de moradores sobre possível presença de armas e drogas no local. Durante as buscas nos aposentos dos religiosos, agentes encontraram dinheiro, uma arma de fogo, brinquedos sexuais, contatos de acompanhantes e um DVD com conteúdo pornográfico.

Quatro monges foram detidos e posteriormente afastados da vida monástica. Três deles testaram positivo para metanfetamina, de acordo com as autoridades. Os religiosos suspeitos de uso de drogas foram encaminhados para os procedimentos previstos pelas autoridades, enquanto o abade passou a ser alvo de uma investigação específica.

Monges também foram presos com drogas no Sri Lanka

Em abril, outro episódio envolvendo integrantes do clero budista chamou atenção na região.

Vinte e dois homens vestidos como monges budistas foram presos no Aeroporto Internacional Bandaranaike, no Sri Lanka, após a descoberta de mais de 112 quilos de drogas escondidas em compartimentos falsos das malas. A carga incluía cerca de 101,7 quilos de kush, uma variedade de cannabis de alta potência, e 10,8 quilos de haxixe.

Os suspeitos haviam chegado de Bangkok, na Tailândia, após uma viagem de quatro dias. Segundo a investigação, alguns dos integrantes mais jovens poderiam não saber exatamente o que estavam transportando, pois teriam recebido a informação de que carregariam materiais educacionais e doces.

Posteriormente, um 23º monge foi preso sob suspeita de organizar o transporte da droga. A investigação também apontou que parte dos envolvidos teria sido recrutada para a viagem e que havia suspeitas de uma operação mais ampla de tráfico.

Casos aumentam pressão por fiscalização

Os episódios são diferentes entre si e envolvem investigações e suspeitas distintas. Ainda assim, a sucessão de casos envolvendo monges em situações incompatíveis com os votos monásticos colocou novamente sob os holofotes a estrutura de fiscalização dos templos na Tailândia.

No caso de Phra Wachirayan, a investigação financeira ganhou dimensão adicional porque o templo é uma instituição tradicional e possui forte influência entre devotos e integrantes de diferentes setores da sociedade. A polícia afirmou que pretende ampliar as apurações para identificar outras pessoas que possam estar envolvidas nas movimentações financeiras.

A repercussão também reacende o debate sobre como são administradas as grandes quantias arrecadadas por templos por meio de doações, venda de amuletos e outras atividades religiosas.

Apesar da sequência de escândalos, os casos individuais não representam, por si só, uma caracterização de toda a comunidade budista tailandesa. O próprio relato de visitantes do Wat Phutthaisawan após o escândalo destacou a necessidade de separar as condutas atribuídas aos indivíduos da religião e das instituições como um todo.

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