quarta-feira , 30 setembro 2026
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Proibição das bets pode virar saída para empresas encerrarem patrocínios do futebol que já não davam retorno

Empresas e clubes discutem alternativas para contratos que movimentam centenas de milhões de reais; alguns acordos podem ser suspensos, enquanto outros devem ser encerrados

Reprodução

A decisão do governo federal de restringir as apostas de quota fixa abriu uma nova frente de negociação entre casas de apostas e clubes de futebol. Empresas do setor avaliam aproveitar a medida para encerrar contratos de patrocínio que já não apresentavam o retorno esperado, enquanto outras tentam preservar os acordos por meio de suspensões temporárias.

O cenário foi relatado à Folha de S.Paulo por pessoas ligadas ao mercado de apostas e ao futebol. Um dos primeiros casos foi o da 7k Bet, que encerrou o contrato de patrocínio máster com o Vitória. Segundo o clube, o acordo previa cerca de R$ 45 milhões em receitas para 2027.

Em outra frente, o Santos optou por suspender, em vez de rescindir, seu contrato com a Novibet. A estratégia considera a possibilidade de que as restrições ao setor sejam temporárias e que as empresas possam retomar suas atividades posteriormente.

Contratos milionários entram em revisão

A presença das bets no futebol brasileiro cresceu nos últimos anos e passou a representar uma parcela relevante das receitas dos clubes. De acordo com levantamento da consultoria Convocados citado pela Folha, os patrocínios de casas de apostas movimentaram aproximadamente R$ 1,03 bilhão entre os clubes da Série A em 2025, equivalente a 7,2% das receitas totais das equipes, que chegaram a R$ 14,3 bilhões.

Entre os contratos de maior valor estão acordos envolvendo clubes de grande torcida. O Corinthians mantém parceria com a Esportes da Sorte em um negócio que pode chegar a R$ 200 milhões por ano, com validade até 2029.

O Flamengo, por sua vez, tem contrato com a Betano estimado em aproximadamente R$ 280 milhões anuais. O vínculo foi firmado no fim de 2025, dentro da estratégia de expansão internacional da empresa.

Já o Santos fechou com a Novibet no início de 2026, em um acordo que pode alcançar R$ 85 milhões. Nesse caso, clube e empresa decidiram manter o vínculo suspenso, em vez de encerrá-lo.

Suspensão pode ser alternativa para contratos estratégicos

A possibilidade de suspensão é considerada por empresas e clubes que fizeram investimentos de longo prazo nas parcerias. Além dos valores previstos nos contratos, há custos relacionados a campanhas publicitárias, uniformes, materiais promocionais e planejamento de marketing.

O especialista em marketing esportivo Fábio Wolff afirmou à Folha que os clubes e fornecedores precisam encontrar rapidamente soluções para produtos que já foram produzidos com as marcas das casas de apostas.

Segundo ele, a mudança também exige definir quem assumirá os custos de adaptação de materiais e como serão reorganizados estoques e lançamentos.

O espaço de patrocinador máster também é um dos ativos comerciais mais disputados pelos clubes. Após o anúncio das restrições, empresas de outros segmentos demonstraram interesse em ocupar esses espaços.

Flamengo e Corinthians também podem rever acordos

Nos bastidores, há expectativa de que contratos envolvendo Flamengo e Betano e Corinthians e Esportes da Sorte possam ser submetidos a negociações semelhantes. Os clubes e as empresas, porém, não confirmaram publicamente qualquer mudança nos acordos.

A Esportes da Sorte chegou ao Corinthians em fevereiro de 2026, depois de vencer a disputa pelo espaço principal da camisa. O contrato foi firmado após a saída da antiga patrocinadora, envolvida em uma investigação que afetou sua relação comercial com o clube.

No Flamengo, a Betano assumiu o patrocínio máster no fim de 2025, após superar outras empresas que disputavam o espaço.

7k Bet rompe contrato com Vitória

O caso do Vitória apresenta uma situação diferente. A 7k Bet decidiu romper o acordo com o clube, que tinha validade prevista até 2027.

Segundo o presidente do Vitória, Fábio Mota, a decisão provocará uma perda de aproximadamente R$ 45 milhões que estavam previstos para 2027, além de valores referentes a outras propriedades publicitárias.

Em entrevista à Rádio Baiana FM, o dirigente afirmou que a forma como a medida foi estabelecida impede, segundo sua avaliação, o recebimento de multa ou indenização pela rescisão.

A 7k Bet e o Vitória foram procurados para comentar o rompimento, mas não haviam se manifestado até a publicação da reportagem original.

Restrição ainda depende da tramitação no Congresso

A situação dos contratos também está relacionada à duração e ao alcance das medidas adotadas pelo governo. A restrição às apostas de quota fixa afeta tanto as apostas esportivas quanto modalidades de jogos online.

A medida tem efeito imediato, mas sua manutenção depende das etapas previstas no processo legislativo. Medidas provisórias têm prazo inicial de 60 dias, prorrogável uma vez por igual período, e perdem a eficácia caso não sejam apreciadas dentro do prazo constitucional.

Além da possibilidade de análise pelo Congresso, entidades ligadas ao setor também questionam judicialmente as medidas. Eventuais decisões do Supremo Tribunal Federal poderão alterar o cenário.

Enquanto isso, clubes e empresas precisam lidar com efeitos imediatos, incluindo a retirada ou adaptação de uniformes, materiais publicitários e campanhas que já estavam planejados.

O resultado é um cenário de incerteza para contratos que movimentam valores elevados no futebol brasileiro: enquanto alguns acordos podem ser encerrados, outros devem permanecer suspensos à espera de uma definição sobre o futuro das apostas de quota fixa no país.

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