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El Niño “muito forte” pode pressionar a conta de luz em 2027

Redução de chuvas nos reservatórios e aumento do consumo com o calor elevam o risco de acionamento de termelétricas e alta nas bandeiras tarifárias

O Brasil deve sentir os efeitos do El Niño sobre o bolso do consumidor de energia elétrica a partir de 2027. A combinação entre a queda no volume de chuvas, que afeta diretamente os reservatórios das hidrelétricas, e o aumento do consumo de eletricidade puxado pelas altas temperaturas cria um cenário de maior pressão sobre o sistema elétrico nacional nos próximos meses.

Segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), há 63% de chance de o fenômeno atingir intensidade “muito forte” entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, o que o colocaria entre os eventos mais relevantes desde o início da série histórica, em 1950. Levantamentos baseados em dados da Aneel mostram que, em meses de El Niño dessa magnitude, o peso das bandeiras tarifárias na conta de luz residencial chega a ser, em média, 62% maior do que em períodos sem o fenômeno.

David Zylbersztajn, colunista do CNN Infra, explica que as hidrelétricas funcionam como a principal “bateria” de energia do país, e que as bacias da região Centro-Oeste, responsáveis pelo maior volume de acumulação, tendem a ser as mais sensíveis à redução das chuvas provocada pelo El Niño. De acordo com ele, os reservatórios estão hoje em níveis adequados, mas sem margem suficiente para absorver uma queda expressiva no regime pluviométrico. “A gente já teve situações muito piores em El Niños anteriores”, ponderou, ao comentar que as previsões atuais indicam um fenômeno de grande intensidade.

O especialista também chama atenção para o efeito das temperaturas mais altas sobre o consumo residencial e comercial de eletricidade, impulsionado especialmente pelo uso de ar-condicionado, hoje presente em boa parte das casas, restaurantes e escritórios do país. Esse aumento de demanda, somado à menor oferta de energia hidroelétrica, pode forçar o acionamento de usinas termelétricas — fonte mais cara, por depender de combustíveis fósseis. “Você pode ter menos hidroelétrica disponível […] e ter que acionar as termoelétricas, que é uma energia mais cara”, resumiu Zylbersztajn.

Para o coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da UFRJ, Nivalde de Castro, não há risco de apagão, já que o sistema brasileiro conta hoje com fontes solar e eólica em escala muito maior do que em crises energéticas anteriores. O impacto, segundo ele, deve se concentrar no custo da energia: o uso mais intenso de termelétricas para preservar os reservatórios tende a elevar as bandeiras tarifárias e pressionar a inflação.
Aumento de tarifa não deve ser imediato, mas é tendência real.

Zylbersztajn avalia que o impacto sobre as tarifas não deve ser repentino, mas representa um risco concreto para 2027. “Não se espera uma explosão nos preços, mas é uma tendência, sim, de aumento dos preços da energia elétrica”, afirmou, atribuindo o movimento principalmente à imprevisibilidade climática. Ele compara o acionamento das térmicas a um seguro: o ideal seria não precisar usá-lo, mas ele tem um custo para garantir o abastecimento diante de um cenário incerto.

A produção agrícola é outro ponto de atenção. Segundo o colunista, uma safra mais afetada pelo clima pode reduzir a oferta de biocombustíveis, item que tem peso relevante na matriz energética brasileira e que, segundo ele, ajudou o país a escapar de altas mais fortes nos combustíveis em comparação ao resto do mundo nos últimos anos.

Há ainda um risco estrutural associado à estiagem: o aumento de queimadas sob linhas de transmissão. Como o sistema elétrico brasileiro é um dos mais interligados do mundo, falhas nesse tipo de infraestrutura podem gerar desligamentos em cadeia. “É mais uma camada de risco que a gente tem aí e que tem que ter muito cuidado, muita prevenção”, concluiu Zylbersztajn.

Diante desse cenário, a Aneel já enviou alertas a operadoras de hidrelétricas para reforço de medidas preventivas, enquanto distribuidoras e consultorias do setor monitoram de perto a evolução das chuvas no segundo semestre — fator que vai definir o tamanho do impacto na conta de luz dos brasileiros em 2027.

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