domingo , 25 outubro 2026
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China rejeita acusações e vê “manipulação política” em novas tarifas dos EUA

Pequim nega uso de trabalho forçado em cadeias produtivas e acusa Washington de transformar tema trabalhista em instrumento de pressão comercial

Porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning

A China reagiu com firmeza à nova ofensiva tarifária dos Estados Unidos e rejeitou as acusações de que produtos exportados pelo país estariam ligados a trabalho forçado. A declaração ocorre após o governo de Donald Trump propor tarifas adicionais contra dezenas de parceiros comerciais, entre eles China, Brasil, Japão, Índia, Coreia do Sul e países da União Europeia.

A medida foi anunciada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, com base em investigações abertas sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Segundo Washington, 60 economias teriam falhado em impor ou fiscalizar de forma efetiva regras contra a entrada de mercadorias produzidas com trabalho forçado em suas cadeias de importação.

Pela proposta norte-americana, países que já possuem algum tipo de proibição ou compromisso parcial nessa área poderiam enfrentar tarifa adicional de 10%. Para os demais, o percentual sugerido sobe para 12,5%. A China está entre os países enquadrados na taxa mais alta.

Em Pequim, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Mao Ning, negou as acusações e criticou o uso de barreiras tarifárias unilaterais. Segundo ela, divergências econômicas e comerciais devem ser tratadas por meio de diálogo, consultas e respeito mútuo, não por medidas de pressão.

A representante chinesa afirmou que “não existe trabalho forçado na China” e acusou os Estados Unidos de utilizarem o tema como pretexto para manipulação política. Para o governo chinês, a medida reforça uma estratégia de Washington para justificar novas restrições comerciais em meio à disputa entre as duas maiores economias do mundo.

O argumento dos Estados Unidos

O USTR sustenta que a ausência de mecanismos rígidos contra produtos feitos com trabalho forçado prejudica empresas e trabalhadores norte-americanos. Na visão do órgão, mercadorias produzidas em condições abusivas podem chegar ao mercado internacional com custos artificialmente menores, criando concorrência considerada desleal.

O representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, defendeu que parceiros comerciais precisam fazer mais para impedir que o comércio global incentive ou perpetue práticas de exploração. A investigação também cita produtos considerados sensíveis em cadeias internacionais, como algodão, polissilício, alimentos, têxteis e outros bens associados a riscos trabalhistas.

Apesar do anúncio, as tarifas ainda não entram em vigor imediatamente. A proposta passará por período de comentários públicos até julho, além de audiência antes de uma eventual decisão final.

Reação chinesa

A resposta chinesa foi direta. Pequim afirmou ser contra todas as formas de tarifas unilaterais e voltou a dizer que guerras comerciais não trazem vencedores. O governo chinês também tenta enquadrar a medida como parte de uma disputa política mais ampla, e não apenas como uma discussão trabalhista.

Na prática, a declaração de Mao Ning sinaliza que a China não pretende aceitar a justificativa norte-americana sem contestação. O país tem rejeitado repetidamente acusações relacionadas a trabalho forçado, especialmente quando associadas a cadeias produtivas da região de Xinjiang, ponto recorrente de tensão com governos ocidentais.

A posição chinesa também busca preservar a narrativa de que o comércio internacional deve ser regido por negociação, estabilidade e previsibilidade, e não por decisões unilaterais de Washington.

Impacto para o comércio global

A nova proposta dos Estados Unidos pode ampliar a instabilidade no comércio internacional. Caso entre em vigor, a tarifa adicional afetaria importações de dezenas de economias e poderia elevar custos para empresas que dependem de cadeias globais de fornecimento.

Além da China, países como Brasil, Índia, Japão, Coreia do Sul, Austrália e Suíça aparecem entre os alvos de tarifa de 12,5%. Outros parceiros, como Canadá, México, Reino Unido e União Europeia, foram citados em faixas diferentes, de acordo com a avaliação norte-americana sobre suas políticas de combate ao trabalho forçado.

A movimentação também surge em um momento sensível para a política comercial dos EUA. O governo Trump tenta reconstruir parte de sua estratégia tarifária após decisões judiciais que limitaram o alcance de medidas anteriores. Com isso, a Seção 301 passou a ser usada como uma alternativa jurídica para sustentar novas ações comerciais.

O que está em jogo

  • A disputa pode elevar a tensão entre China e Estados Unidos, mesmo após recentes conversas entre Trump e Xi Jinping.
  • A proposta norte-americana ainda depende de consulta pública e audiência antes de ser formalizada.
  • Pequim nega as acusações e acusa Washington de usar o tema do trabalho forçado como justificativa política.
  • Empresas globais podem enfrentar mais incerteza em cadeias de fornecimento, especialmente em setores como têxtil, tecnologia, alimentos e energia.
  • Países aliados dos EUA também foram atingidos pela investigação, o que pode ampliar a resistência internacional à medida.

Disputa vai além das tarifas

Embora o tema central da investigação seja o combate ao trabalho forçado, a reação chinesa mostra que a disputa é também geopolítica. Para os Estados Unidos, a medida seria uma forma de proteger trabalhadores e empresas de concorrência desleal. Para a China, trata-se de uma tentativa de impor barreiras comerciais sob argumento humanitário.

A tensão reforça um cenário de rivalidade prolongada entre Washington e Pequim, marcado por disputas sobre tecnologia, indústria, cadeias produtivas, acesso a mercados e influência global. Mesmo com canais diplomáticos abertos, as novas tarifas mostram que a relação econômica entre os dois países continua vulnerável a choques políticos.

Enquanto a proposta ainda passa por análise nos Estados Unidos, a resposta chinesa indica que Pequim deve manter o tom de resistência. Para o comércio global, o episódio representa mais um capítulo de incerteza em uma disputa que ultrapassa fronteiras e pode afetar empresas, consumidores e governos em várias partes do mundo.

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