A chamada “nova cúpula do jogo do bicho” no Rio de Janeiro, formada por nomes apontados nas investigações como Rogério Andrade, Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, e Vinicius Drumond, entrou em colapso. O grupo, tratado por investigadores como uma tentativa de reorganizar o comando da contravenção no estado, passou a ser alvo de operações, inquéritos e disputas violentas que expuseram o enfraquecimento da aliança.
Segundo apurações do Ministério Público do Rio de Janeiro, a nova articulação teria consolidado áreas de domínio de cada liderança e avançado sobre territórios explorados por outros grupos criminosos, entre eles o do contraventor Bernardo Bello. Em março de 2026, uma operação do MPRJ contra um bingo clandestino em Vila Isabel apreendeu 48 máquinas caça-níqueis, documentos e equipamentos eletrônicos em uma área atribuída à influência da chamada nova cúpula.
Como surgiu a nova cúpula
O jogo do bicho nasceu no Rio de Janeiro em 1892, criado pelo barão João Batista Viana Drummond como uma forma de atrair público para o zoológico que mantinha. Com o tempo, a prática deixou de ser apenas uma rifa popular e passou a integrar redes clandestinas com forte domínio territorial, influência política, ligação com escolas de samba e histórico de violência.
Dentro desse cenário, investigadores apontam que a “nova cúpula” surgiu como uma tentativa de substituir ou desafiar a velha guarda da contravenção. A aliança teria reunido Rogério Andrade, herdeiro da linhagem de Castor de Andrade; Adilsinho, com base em Duque de Caxias e apontado pela Polícia Federal como ligado à máfia do cigarro; e Vinicius Drumond, filho de Luizinho Drumond, tradicional nome da contravenção ligado à região da Leopoldina.
Conversas interceptadas pela Polícia Federal em 2021 já indicavam, segundo reportagens baseadas nas investigações, o interesse de reformular o comando do bicho no Rio. Entre integrantes do próprio meio, o trio chegou a ser chamado de “Santíssima Trindade”.
Quem eram os principais nomes
Rogério Andrade
Rogério Andrade é apontado como um dos nomes mais influentes da contravenção no Rio. Sobrinho de Castor de Andrade, ele ficou associado à disputa histórica pelo espólio criminoso da família Andrade, especialmente na Zona Oeste. Rogério foi preso em 29 de outubro de 2024, durante a Operação Último Ato, do Gaeco/MPRJ e da CSI/MPRJ, acusado de envolvimento no homicídio do rival Fernando Iggnácio, morto em 2020 no Recreio dos Bandeirantes. Depois, foi transferido para a Penitenciária Federal de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul.
Investigações também apontam que a estrutura atribuída a Rogério teria alcançado milhares de pontos de exploração do jogo. Um pen drive apreendido pelo Gaeco teria listado 6.437 pontos de jogo em 58 municípios fluminenses, com endereços e responsáveis pelos chamados “comércios de rua”.
Adilsinho
Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, é tratado por investigadores como uma das lideranças do jogo do bicho e suspeito de chefiar uma rede de cigarros falsificados e contrabandeados. Ele foi preso em Cabo Frio em 26 de fevereiro de 2026, em ação da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado. Contra ele havia mandados relacionados a contrabando e homicídio, segundo a Folha de S.Paulo.
A Polícia Federal também investigou a chamada máfia do cigarro no Rio, com operações que identificaram fábricas clandestinas e trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão. Em uma das fases da Operação Libertatis, 12 pessoas foram presas, e Adilsinho apareceu como um dos alvos.
Vinicius Drumond
Vinicius Drumond, filho de Luizinho Drumond, é apontado como herdeiro de áreas historicamente ligadas ao pai e como integrante da nova articulação do bicho. Ele também teve forte presença no carnaval carioca e foi associado a escolas de samba. Em julho de 2025, Vinicius foi alvo de uma tentativa de execução na Barra da Tijuca, quando o carro blindado em que estava foi atingido por diversos disparos.
Quando a nova cúpula começou a ser investigada
As investigações sobre a articulação entre os três nomes ganharam força a partir de elementos colhidos pela Polícia Federal, pela Delegacia de Homicídios da Capital e pelo Ministério Público do Rio. Um dos pontos citados em reportagens é o inquérito sobre a morte do miliciano Marquinho Catiri, em 2022. Segundo documentos mencionados nas apurações, o crime teria relação com a tomada de pontos de jogo explorados por Bernardo Bello.
Em 2026, o MPRJ passou a mirar estruturas diretamente associadas à nova cúpula. A operação em Vila Isabel, em março, teve como alvo um bingo clandestino em área considerada dominada pelo grupo. O local já havia sido alvo de ações anteriores em 2016 e 2021, o que indica a permanência da exploração ilegal naquela região.
As ligações da nova cúpula
As investigações apontam que a nova cúpula não estaria limitada ao jogo do bicho tradicional. A estrutura teria ligação com máquinas caça-níqueis, bingos clandestinos, apostas ilegais, exploração territorial, lavagem de dinheiro, homicídios e contrabando de cigarros.
No caso de Rogério, os investigadores relacionam sua atuação à disputa por pontos de bicho e máquinas caça-níqueis. No caso de Adilsinho, as apurações incluem suspeitas sobre a fabricação e distribuição de cigarros ilegais. Já Vinicius aparece em inquéritos relacionados à reorganização territorial da contravenção e a episódios de violência envolvendo antigos aliados e rivais.
O MPRJ também apura crimes como exploração de jogos de azar, organização criminosa, lavagem de capitais e homicídios em operações contra grupos ligados à contravenção no Rio.
O racha interno
A aliança começou a ruir por dentro. Segundo reportagens baseadas nas investigações, Vinicius Drumond teria se considerado traído por Adilsinho após um antigo colaborador de sua família migrar para o grupo rival. O ex-gerente Manuel Agostinho acabou assassinado em setembro de 2024, em Del Castilho, e a Delegacia de Homicídios aponta Vinicius como suspeito no caso.
Depois disso, investigadores passaram a apurar se outros crimes poderiam ter sido retaliações entre os próprios integrantes da antiga aliança. O atentado contra Vinicius, em julho de 2025, reforçou a avaliação de que a chamada “Santíssima Trindade” já não operava mais como um bloco unido.
A prisão de Rogério Andrade, apontado como um dos principais articuladores do grupo, aprofundou o enfraquecimento. Com ele fora do Rio e mantido em presídio federal, a estrutura teria perdido o principal ponto de equilíbrio entre os interesses dos três nomes.
Rivais avançam sobre o espaço deixado pelo grupo
O enfraquecimento da nova cúpula também abriu espaço para adversários. Após a morte de Fernando Iggnácio, Marcos Paulo Moreira da Silva, conhecido como Marquinho Sem Cérebro, passou a aparecer nas investigações como figura em ascensão na disputa por máquinas caça-níqueis e territórios em Bangu, reduto histórico da família Andrade.
Em abril de 2026, uma operação do Ministério Público do Rio prendeu cinco pessoas e cumpriu 18 mandados de busca e apreensão em bairros da Zona Oeste e da Zona Norte. A ação mirou um grupo que, segundo as investigações, teria ganhado espaço na contravenção após a morte de Fernando Iggnácio. Foram apreendidos documentos, armas, máquinas caça-níqueis e equipamentos de bingo clandestino.
Por que se fala no fim da nova cúpula
O fim da nova cúpula é apontado por investigadores por uma combinação de fatores: Rogério Andrade está preso em presídio federal; Adilsinho também foi detido; Vinicius Drumond virou alvo de inquéritos e sofreu um atentado; e a aliança entre os três foi marcada por traições, suspeitas de assassinatos e disputas por pontos de jogo.
Na prática, o grupo que tentou assumir uma nova ordem dentro do bicho passou a enfrentar o mesmo problema que marcou a velha contravenção: a dificuldade de manter acordos estáveis em um mercado ilegal movido por território, dinheiro e violência.
Outro lado
A defesa de Adilsinho afirma que ele nega envolvimento com organização criminosa, homicídios ou comércio irregular de cigarros, e diz confiar que sua inocência será comprovada pela Justiça. A defesa de Rogério Andrade não se manifestou em reportagens consultadas. Os investigados citados têm direito à ampla defesa e ao contraditório.

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