quarta-feira , 14 outubro 2026
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Vídeos mostram PM dançando funk armado e ao lado de liderança do Comando Vermelho

Investigação aponta que terceiro-sargento morto em julho teria negociado armamentos com traficantes e repassado informações sobre operações policiais no Rio de Janeiro

Reprodução

Vídeos e fotografias encontrados pela Polícia Civil do Rio de Janeiro mostram o terceiro-sargento da Polícia Militar Yuri Luiz Desiderati Ribeiro dançando funk com armas de fogo e fazendo referências ao Comando Vermelho (CV). O material foi localizado durante a análise de dados ligados ao policial, morto a tiros em julho deste ano, e integra uma investigação sobre possíveis conexões entre agentes de segurança e integrantes da facção criminosa.

Segundo a Polícia Civil, as imagens, associadas a conversas sobre oferta de armas e ao suposto compartilhamento de informações sigilosas sobre operações policiais, reforçam os indícios de que o militar mantinha contato com integrantes da organização criminosa.

A apuração também investiga uma possível rede de fornecimento de drogas e armamentos ao grupo. O caso embasou uma operação realizada nesta terça-feira (13), com participação da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), do Grupo de Atuação Especializada de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Rio de Janeiro, e da Corregedoria da Polícia Militar.

Fotografia mostra sargento ao lado de liderança do CV

Entre os arquivos analisados pelos investigadores está uma fotografia em que Yuri aparece ao lado de Manoel Cinquine Pereira, conhecido como Paulista. Ele é apontado pela polícia como uma das lideranças do Comando Vermelho no Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio.

De acordo com a DRE, Paulista teria participação na aquisição de drogas e armamentos destinados à facção. Ele também estava entre os alvos da operação realizada nesta terça-feira.

A investigação não se baseia apenas na fotografia. Os policiais identificaram conversas nas quais Yuri supostamente oferecia armas e carregadores a Paulista.

Em um dos diálogos mencionados no relatório, o sargento fala sobre um “bico” e “vários carregadores”. Na sequência, segundo os investigadores, envia imagens de armas de fogo e acessórios e pergunta se o interlocutor tem interesse no material.

Para a Polícia Civil, as mensagens podem indicar uma negociação clandestina de armamentos e uma possível intermediação do policial em favor de integrantes da facção.

Vídeos mostram policial com pistolas e fuzil

Outro material descrito no inquérito mostra Yuri deitado no chão, segurando uma pistola e gritando uma frase em referência ao Comando Vermelho: “É o CV, c*”.

Em outra gravação, o militar aparece dançando funk enquanto segura armas de fogo. Para os investigadores, os registros integram o conjunto de elementos que apontariam uma possível ligação do sargento com a organização criminosa.

Uma fotografia também mostra Yuri com um fuzil no colo. Segundo a análise policial, os metadados do arquivo — informações digitais associadas à imagem — indicariam que o registro foi feito no Complexo da Penha, região onde Paulista é apontado como liderança.

Os investigadores avaliam que a arma pode pertencer à família Kalashnikov AK, devido às características visíveis, incluindo o carregador curvo. A identificação, porém, é tratada como uma hipótese.

Conversas citam possível intermediação entre policial e traficantes

As mensagens analisadas também incluem conversas entre Yuri e Marcos Leandro de Oliveira Serra, conhecido como Kiko.

Segundo os investigadores, os diálogos sugerem que Kiko atuava como intermediário entre o policial e pessoas ligadas à estrutura de comando da facção.

Entre os trechos reproduzidos no relatório estão as frases “O chefe quer falar com nós” e “Chefe quer falar com você”. Na avaliação da polícia, as mensagens podem indicar uma relação de interlocução e possível subordinação dentro da rede investigada.

A apuração busca esclarecer qual era o papel de cada envolvido e se o policial participava efetivamente da oferta ou do fornecimento de armamentos e munições ao grupo criminoso.

Sargento foi preso com mais de 100 quilos de cocaína em 2023

Yuri era lotado em um batalhão da Polícia Militar em São João de Meriti, na Baixada Fluminense. Em outubro de 2023, ele foi preso na Avenida Brasil, no Rio de Janeiro, enquanto transportava mais de 100 quilos de cocaína na companhia de Kiko.

O flagrante deu origem à investigação sobre uma possível rede de abastecimento de drogas e armas para o Comando Vermelho.

O sargento morreu em julho deste ano, após ser atingido por disparos quando chegava ao condomínio onde morava, no bairro do Pechincha, em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio.

O homicídio é investigado pela Delegacia de Homicídios da Capital. Uma das hipóteses consideradas é a de que Yuri tenha sido executado por integrantes da própria facção, mas essa suspeita não havia sido confirmada como motivação do crime nas informações divulgadas.

Investigação aponta suposto vazamento de operações policiais

Outra linha da apuração envolve o possível repasse de informações sobre a movimentação de policiais a Luciano Santos de Oliveira, conhecido como Hot Wheels. Segundo a DRE, ele é apontado como uma liderança do tráfico em comunidades de São João de Meriti.

De acordo com o relatório, as conversas atribuídas a Yuri incluíam informações sobre patrulhamento, circulação de viaturas e saída de veículos blindados do batalhão em que o sargento trabalhava.

Os investigadores afirmam que, em determinadas ocasiões, o militar teria atualizado Hot Wheels em tempo real sobre a movimentação das equipes policiais.

Em um dos episódios descritos, o traficante teria cobrado Yuri por não ter avisado previamente sobre uma operação. Em resposta, segundo a análise da DRE, o sargento enviou um áudio dizendo que estava chegando ao batalhão e que verificaria a movimentação.

A suspeita é que o compartilhamento dessas informações pudesse permitir que integrantes da facção se antecipassem às ações das forças de segurança.

Operação prendeu suspeitos e teve policial entre os alvos

A operação desta terça-feira teve como objetivo investigar possíveis vínculos entre policiais militares e integrantes do Comando Vermelho, incluindo o suposto repasse de informações privilegiadas e negociações clandestinas de armas e munições.

Dois homens foram presos durante a ação. Um deles é Leonardo Aguiar, conhecido como “da Nike”, apontado pela polícia como integrante do braço armado da facção. Ele foi localizado em Maricá.

Também foi cumprido um mandado de prisão contra um homem conhecido como Serrão, que já estava preso. Em outra ocorrência, um suspeito foi detido em flagrante em uma comunidade de Del Castilho com munições, rádios de comunicação e uma motocicleta roubada.

Entre os alvos da investigação estava o cabo da Polícia Militar Erick da Silva Lobato, lotado no batalhão de São João de Meriti. Segundo a polícia, ele é suspeito de manter ligação com integrantes do Comando Vermelho e de negociar armas e drogas destinadas a traficantes.

A investigação continua para esclarecer a participação de cada suspeito, a extensão dos possíveis vínculos com a facção e a existência de uma rede de fornecimento de informações e armamentos. As suspeitas descritas no inquérito ainda dependem da apuração das autoridades competentes.

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