A Polícia Federal identificou cerca de R$ 17 bilhões em operações consideradas fictícias ou sem consistência material envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master, segundo documentos que tiveram o sigilo levantado no âmbito das investigações conduzidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
De acordo com a PF, aproximadamente R$ 12,2 bilhões desse montante correspondem a carteiras de crédito que não puderam ser confirmadas. Os investigadores apontam que os ativos eram apresentados por meio de Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) vinculadas a supostos empréstimos consignados que teriam sido originados pela Tirreno, empresa considerada de fachada na investigação.
A apuração faz parte da Operação Compliance Zero e ganhou novos elementos após a divulgação de documentos do caso. O Banco Central também identificou inconsistências nas carteiras analisadas. Segundo a investigação, nenhum dos créditos examinados conseguiu ser confirmado como efetivamente existente.
Operações teriam sido aceleradas
Mensagens apreendidas pela PF em celulares de antigos dirigentes do BRB indicam que havia dúvidas dentro da própria instituição sobre a origem e a movimentação das carteiras comercializadas pelo Master.
Em uma conversa de novembro de 2024, o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, questionou como novas carteiras apareciam mesmo quando, segundo ele, não havia uma carteira anterior que justificasse a operação.
A investigação afirma que, apesar dos questionamentos, negociações continuaram avançando em ritmo considerado incompatível com os procedimentos habituais de análise bancária.
Um dos episódios citados envolve um contrato de R$ 400 milhões. Segundo a PF, documentos foram encaminhados pelo Master ao BRB para assinatura e posteriormente substituídos por novas versões no mesmo dia.
Nas proximidades do encerramento do sistema bancário, às 17h30, três contratos teriam sido assinados em poucos minutos. Para os investigadores, a velocidade da operação indica uma tentativa deliberada de acelerar a liberação dos recursos sem que houvesse tempo suficiente para uma análise técnica adequada.
A PF também afirma ter encontrado situações em que os limites de inadimplência foram ampliados e operações foram divididas em diferentes parcelas para permitir sua aprovação fora do fluxo convencional de governança.
Alertas do Banco Central não interromperam compras
Outro ponto destacado na investigação é que o BRB firmou, em fevereiro de 2025, um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Banco Central após a identificação de problemas relacionados à avaliação de créditos adquiridos do Credcesta.
As auditorias apontavam falhas na análise dos ativos e no fornecimento de documentos, dados e informações à autoridade monetária. Também foi determinada a contratação de auditoria independente para acompanhar as operações.
Mesmo após o acordo, porém, o BRB teria continuado comprando carteiras do Master. Segundo os documentos da investigação, novas aquisições somaram aproximadamente R$ 4 bilhões.
Para a PF, a continuidade das operações após os alertas reforça a hipótese de que integrantes da diretoria tinham conhecimento dos problemas relacionados aos ativos.
Em julho de 2025, uma anotação atribuída a uma reunião da diretoria do BRB registra, segundo a investigação, a defesa da continuidade das compras mesmo diante de pareceres jurídicos contrários emitidos meses antes.
PF aponta produção de documentos para dar aparência de lastro
A investigação também descreve um mecanismo utilizado para sustentar documentalmente créditos que, segundo os investigadores, não existiam.
De acordo com documentos divulgados no caso, sistemas do Banco Master teriam sido utilizados para produzir Cédulas de Crédito Bancário em grande escala a partir de dados antigos de clientes. A PF também identificou a criação automatizada de procurações que simulavam autorização para a contratação de empréstimos.
Em um dos levantamentos, foram identificadas cerca de 2,7 mil procurações produzidas de forma automatizada. Aproximadamente 1,8 mil delas teriam sido encaminhadas ao BRB para sustentar créditos supostamente originados pela Tirreno.
A suspeita dos investigadores é que esses documentos fossem utilizados para criar aparência de regularidade e dar sustentação às carteiras negociadas entre as instituições.
Ex-dirigente do Master é citado nas investigações
A PF também atribui a Augusto Lima participação na estruturação de carteiras fraudulentas posteriormente vendidas pelo Master ao BRB.
Lima é apontado nas investigações como uma figura ligada à criação do Credcesta, produto de crédito consignado que posteriormente foi explorado pelo Master. Segundo os documentos, mensagens encontradas em aparelhos celulares indicariam que ele participava das negociações relacionadas às carteiras.
A investigação também cita conversas com Daniel Vorcaro, então controlador do Master. Segundo a PF, as mensagens mostram cobranças pela elaboração e envio de contratos e CCBs em prazos reduzidos para que as operações fossem liquidadas dentro das janelas estabelecidas.
Em outro episódio, investigadores identificaram conversas nas quais valores de extratos da Tirreno teriam sido alterados para incluir remunerações relacionadas a aplicações financeiras.
A PF afirma que funcionários do Master tinham conhecimento de dificuldades para comprovar a existência dos créditos perante os órgãos responsáveis pelos descontos dos empréstimos consignados.
BRB diz que instituição foi vítima
Em nota, o BRB afirmou que a divulgação dos documentos representa uma oportunidade para esclarecer o que ocorreu durante as operações com o Master.
O banco destacou que a atual administração retirou dos cargos os integrantes da diretoria que comandavam a instituição durante o período investigado e ressaltou que os antigos dirigentes não devem ser confundidos com o próprio BRB.
A instituição também afirmou que pretende adotar medidas para proteger seu patrimônio, buscar eventual ressarcimento de prejuízos e fortalecer os mecanismos de governança e controle.
O BRB chegou a solicitar ao STF a suspensão temporária de determinadas provisões contábeis relacionadas aos ativos adquiridos do Master, argumentando que ainda seria necessário apurar a real situação das carteiras.
Defesa contesta acusações
A defesa de Augusto Lima negou as acusações apresentadas pela PF e afirmou que parte das informações divulgadas corresponde a alegações feitas no início das investigações que, segundo os advogados, não se sustentariam diante dos elementos reunidos posteriormente.
Lima também nega ter participado das negociações de carteiras com o BRB e afirma ter deixado a sociedade e a administração do Master em maio de 2024.
As suspeitas continuam sendo investigadas no âmbito da Operação Compliance Zero. As conclusões apresentadas pela Polícia Federal ainda serão submetidas às demais etapas da investigação e da análise judicial, não representando, por si só, uma condenação dos envolvidos.

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