Duas famílias de Alagoas buscam respostas após a morte de crianças que tinham microcefalia e utilizavam sondas de gastrostomia para alimentação. Os casos de Richard Gabriel, de 11 meses, e Cecília Ferreira da Silva, de 2 anos, ocorreram em momentos diferentes, mas apresentam pontos semelhantes: ambos passaram pelo Hospital Geral do Estado (HGE), em Maceió, para procedimentos relacionados às sondas e morreram posteriormente.
Os casos foram reunidos em uma reportagem exibida pelo Jornal da Francês nesta sexta-feira (25). As famílias relatam possíveis falhas nos atendimentos e pedem que as circunstâncias das mortes sejam investigadas.
Até o momento, não há conclusão oficial que atribua os óbitos a erro médico ou estabeleça relação entre os dois casos. As circunstâncias precisam ser apuradas individualmente a partir de prontuários, exames, laudos periciais, depoimentos e demais documentos médicos e policiais.
Richard Gabriel morreu em junho
Richard Gabriel tinha 11 meses e, segundo a mãe, Glória Omena, passou grande parte da vida entre hospitais e tratamentos. A criança tinha microcefalia e era alimentada por meio de uma sonda de gastrostomia.
Em junho, Glória levou o filho ao HGE para realizar a troca do dispositivo. Segundo o relato apresentado pela família, Richard foi encaminhado para a área vermelha e passou pelo procedimento.
A mãe afirma que foram necessárias três tentativas para introduzir a nova sonda e que houve sangramento durante a intervenção. Segundo ela, sangue chegou a atingir seu rosto.
Richard recebeu alimentação e foi liberado. Durante a madrugada, porém, apresentou problemas de saúde e precisou ser levado novamente para atendimento médico. No dia seguinte, morreu.
Glória afirma que um laudo do Instituto Médico Legal (IML) apontou perfuração e lesão no estômago.
“Levei meu filho para pedir um atendimento médico e ele não voltou mais para os meus braços. Eu só quero justiça”, declarou a mãe.
O caso foi divulgado anteriormente pelo Francês News, que registrou o relato da família sobre o procedimento e as circunstâncias que antecederam a morte.
Cecília morreu menos de 24 horas após procedimento
O segundo caso envolve Cecília Ferreira da Silva, de 2 anos, que morreu em 15 de setembro, menos de 24 horas depois de passar pelo HGE para a recolocação de uma sonda de gastrostomia.
Segundo a mãe, Williane da Silva Pereira, a menina tinha microcefalia e utilizava o dispositivo havia quase um ano. A sonda saiu acidentalmente enquanto a criança estava em casa, no dia 14 de setembro.
Ainda de acordo com o relato da família, Cecília foi levada ao HGE e passou por um procedimento para recolocação da sonda. A mãe afirma que, depois da alta, percebeu que a filha estava com o abdome inchado e endurecido.
A família procurou atendimento novamente. Segundo o relato de Williane, exames apontaram que a sonda teria seguido um trajeto inadequado.
Cecília retornou ao HGE durante a noite e morreu na manhã seguinte, após uma parada cardíaca.
A certidão de óbito apresentada pela família registra como causas da morte “sepse de foco abdominal”, “abdome agudo inflamatório” e “falso trajeto de sonda de gastrostomia”. O documento confirma o registro dessas condições, mas não determina, sozinho, como o falso trajeto foi provocado ou se houve falha profissional.
Caso foi levado à Polícia Civil
Williane registrou um boletim de ocorrência em 19 de setembro, na Central de Flagrantes de Maceió. O caso foi encaminhado para a Delegacia de Combate aos Crimes contra Crianças e Adolescentes. A classificação inicial registrada foi “outros fatos atípicos”, que não representa uma conclusão sobre a existência de crime.
A mãe afirma que busca entender o que aconteceu durante o atendimento.
“Eu preciso saber o que realmente aconteceu, porque minha filha já trocou a sonda outras vezes e nunca tinha ocorrido algo parecido”, afirmou.
Famílias questionam atendimento no HGE
Os dois casos apresentam elementos semelhantes segundo os relatos das famílias: crianças com microcefalia, uso de gastrostomia, atendimento no HGE para procedimentos relacionados às sondas e mortes posteriores.
A coincidência, porém, não permite concluir que os óbitos tenham a mesma causa ou que tenham ocorrido por uma falha no atendimento hospitalar.
No caso de Cecília, por exemplo, a certidão aponta complicações abdominais e um falso trajeto da sonda. Já no caso de Richard, a família afirma que o laudo do IML apontou lesões no estômago. A relação entre os procedimentos realizados e as mortes precisa ser estabelecida por investigação técnica.
Questionamentos sobre a rede pediátrica
A reportagem também levantou dúvidas sobre o fluxo de atendimento de crianças que precisam realizar procedimentos relacionados à gastrostomia.
O Hospital da Criança de Alagoas é referência estadual em atendimento pediátrico, mas funciona por meio da regulação e não como unidade de porta aberta para emergências. O HGE, por sua vez, possui atendimento de emergência pediátrica 24 horas.
Entre os pontos que as famílias defendem que sejam esclarecidos estão quais protocolos foram utilizados nos procedimentos, quais exames foram realizados antes das altas, se houve acompanhamento após a recolocação das sondas e se havia necessidade de avaliação por uma unidade especializada.
Também deverá ser esclarecido, em cada caso, se houve alguma intercorrência durante os procedimentos e qual foi a conduta adotada pelas equipes médicas.
Investigação deverá esclarecer circunstâncias das mortes
Os casos de Richard e Cecília são independentes e deverão ser analisados separadamente pelas autoridades.
A apuração poderá considerar prontuários médicos, exames de imagem, laudos do IML, certidões de óbito, registros dos atendimentos, depoimentos dos profissionais e familiares e outros elementos que possam ajudar a reconstruir o que ocorreu.
Até que essas análises sejam concluídas, não é possível afirmar que houve erro médico ou que os dois óbitos estejam relacionados.
O espaço permanece aberto para manifestações do HGE e da Secretaria de Estado da Saúde de Alagoas sobre os atendimentos e os procedimentos realizados nos dois casos.

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