O Estádio Rei Pelé, em Maceió, recebeu ao longo dos últimos anos contratos, obras e serviços de manutenção enquanto sua estrutura continua demandando intervenções. Documentos públicos mostram que a relação entre o Governo de Alagoas e a Nave Construções começou em 2019 com um contrato de R$ 4,5 milhões, mas teve prorrogações posteriores.
Ao mesmo tempo, um levantamento realizado a partir do Portal da Transparência aponta R$ 13,46 milhões em empenhos para a empresa entre 2019 e 2025, vinculados à unidade gestora responsável pela administração do estádio.
A diferença entre o valor originalmente contratado e o total empenhado exige uma análise dos aditivos, prorrogações, serviços efetivamente executados e pagamentos realizados ao longo dos anos. Documentos localizados no Diário Oficial confirmam que houve, de fato, alterações e extensões do contrato — o que torna necessário detalhar como os valores foram compostos.
Contrato começou com R$ 4,5 milhões
Em fevereiro de 2019, a Secretaria de Estado do Esporte, Lazer e Juventude (SELAJ) firmou o Contrato nº 001/2019 com a Nave Construções para serviços relacionados à manutenção predial do Estádio Rei Pelé.
O contrato tinha valor global de R$ 4,5 milhões e vigência inicial de 12 meses.
A contratação ocorreu por adesão a uma ata de registro de preços utilizada pela administração estadual. A documentação oficial localizada posteriormente confirma que o contrato passou por sucessivas alterações.
Em fevereiro de 2021, por exemplo, um termo aditivo prorrogou a vigência por mais 12 meses e manteve o valor máximo estimado em R$ 4,5 milhões. O documento também identificou a servidora responsável pela fiscalização do contrato naquele período.
Já em fevereiro de 2023, o Diário Oficial registrou o quarto termo aditivo, novamente prorrogando a vigência por mais 12 meses e mantendo o valor global de R$ 4,5 milhões.
No mesmo mês, outro documento oficial registrou a troca do fiscal do contrato, indicando a continuidade da execução contratual.
De R$ 4,5 milhões aos R$ 13,4 milhões empenhados
O levantamento realizado no Portal da Transparência aponta que os empenhos associados à Nave Construções e à unidade gestora 360021 somaram R$ 13.462.019,70 entre 2019 e 2025.
O número, sozinho, não significa que todo esse montante tenha sido efetivamente pago. Empenho é a etapa em que o poder público reserva o recurso orçamentário para uma determinada despesa. Para saber quanto efetivamente saiu dos cofres estaduais, é necessário verificar também as etapas de liquidação e pagamento.
Por isso, a principal questão que permanece é a composição desse montante ao longo dos anos: quais serviços foram contratados em cada período, quais prorrogações e alterações sustentaram os empenhos e quanto foi efetivamente pago à empresa.
Os documentos públicos localizados mostram que houve aditivos, mas a documentação disponível consultada não permite, por si só, reconstruir toda a composição dos R$ 13,4 milhões sem o exame dos processos administrativos e dos registros financeiros correspondentes.
Enquanto isso, laudo aponta problemas estruturais
A discussão sobre os contratos de manutenção ganha outro peso diante das condições estruturais apontadas em 2026.
Um laudo técnico elaborado em junho pelo Consórcio High Tech-Progetto identificou problemas em diferentes áreas do estádio. O documento serviu de base para manifestações da Procuradoria-Geral do Estado (PGE-AL), que determinou a adoção de medidas emergenciais.
Entre as recomendações estão a interdição parcial das Rampas 02 e 03 e o escoramento provisório das estruturas. Também foi determinada a desocupação e interdição dos alojamentos 29, 31 e 36 do Setor 05 até a realização das intervenções necessárias.
A PGE também apontou que havia inconsistências internas no laudo, especialmente relacionadas ao Setor 05 e à Rampa 02. Mesmo assim, destacou que essas divergências não suspendiam a necessidade de cumprimento das medidas classificadas como emergenciais.
A Procuradoria ressaltou ainda que não possui competência técnica para definir métodos de engenharia ou certificar a segurança da estrutura. Essa responsabilidade cabe aos órgãos responsáveis pela obra, fiscalização e administração do estádio.
Estado tem novos contratos para recuperação estrutural
A situação estrutural do Rei Pelé também aparece em contratos mais recentes da Secretaria de Estado da Infraestrutura (Seinfra).
Em junho de 2026, o Diário Oficial registrou o oitavo termo aditivo ao Contrato Seinfra nº 31/2022, cujo objeto é justamente a execução de obras de recuperação estrutural do estádio.
Meses antes, a própria PGE havia apontado problemas relacionados à tramitação desse contrato. Em despacho de janeiro de 2026, a Procuradoria registrou entendimento contrário à celebração de um sétimo termo aditivo, mencionando extrapolação do limite legal aplicável a reformas de edifícios e a defasagem do projeto básico diante do intervalo entre o laudo estrutural e a ordem de serviço.
Os documentos mostram, portanto, que a manutenção do estádio não se resume ao contrato firmado pela SELAJ com a Nave Construções. Há também uma frente específica de recuperação estrutural conduzida pela Seinfra.
O que a SELAJ informou
Em resposta à reportagem, a SELAJ afirmou ter realizado diversas intervenções no Rei Pelé nos últimos anos.
Segundo a secretaria, foram feitas melhorias no gramado, nos sistemas de drenagem e irrigação, na iluminação, nos vestiários e áreas de apoio e nos alojamentos. A pasta também citou reformas no Auditório Lauthenay Perdigão e no Museu dos Esportes, além da instalação de um sistema de videomonitoramento com mais de 80 câmeras.
A secretaria informou ainda que o estádio recebeu 78 partidas em 2025, enquanto os alojamentos foram utilizados por 6.644 pessoas e o auditório recebeu 6.081 participantes em atividades.
A pasta afirmou que a manutenção de um equipamento com mais de cinco décadas é um processo permanente.
A resposta, porém, não detalhou quais dessas intervenções foram executadas especificamente pela Nave Construções, nem apresentou, na resposta encaminhada à reportagem, uma relação dos serviços realizados pela empresa ano a ano.
O que ainda precisa ser esclarecido
Diante dos valores identificados e dos documentos de prorrogação encontrados, algumas questões permanecem abertas.
Entre elas estão a discriminação dos serviços executados pela Nave Construções em cada exercício, os valores empenhados, liquidados e efetivamente pagos, os responsáveis pela fiscalização do contrato em cada período e os fundamentos administrativos utilizados para as sucessivas prorrogações.
Também é necessário esclarecer como os serviços contratados ao longo dos anos se relacionam com as obras de recuperação estrutural atualmente conduzidas pela Seinfra.
A existência de R$ 13,4 milhões em empenhos e de problemas estruturais no estádio não permite, isoladamente, concluir que houve irregularidade na execução dos contratos ou que os problemas atuais tenham sido causados pela falta de manutenção. Essas relações dependem da análise dos processos administrativos, dos serviços efetivamente executados e das avaliações técnicas correspondentes.
O que os documentos oficiais permitem afirmar é que o Estado manteve contratos e investimentos no equipamento ao longo dos anos e que, em 2026, a própria administração reconheceu a necessidade de intervenções emergenciais em partes da estrutura do Rei Pelé.

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