O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta terça-feira (8) o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Augusto Passos Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial da instituição, Leandro Almada da Costa.
A decisão ocorre em meio à crise institucional provocada pela divulgação de relatórios de inteligência produzidos pela própria PF com análises sobre a atuação de autoridades, entre elas o ministro Mendonça e o advogado-geral da União, Jorge Messias.
Segundo as informações divulgadas nesta terça, Mendonça justificou a medida como uma forma de evitar eventuais constrangimentos e permitir que autoridades e servidores da Polícia Federal exerçam suas funções sem interferências indevidas.
O afastamento é preventivo e não representa uma conclusão de responsabilidade contra os dois dirigentes.
Investigação sobre a produção dos relatórios
Além de determinar os afastamentos, Mendonça ordenou a apuração das circunstâncias em que os documentos de inteligência foram elaborados e utilizados.
A investigação deverá verificar a origem dos relatórios, os procedimentos empregados na produção do material e a eventual participação de agentes públicos em sua elaboração ou encaminhamento.
A Corregedoria da Polícia Federal também deverá atuar na apuração administrativa, enquanto os possíveis aspectos criminais serão analisados pelas autoridades competentes.
A medida ocorre depois que vieram a público documentos produzidos entre 3 e 31 de agosto de 2026 por uma área de inteligência da PF. Segundo reportagens que tiveram acesso ao material, foram elaborados seis relatórios sobre a atuação de Mendonça em investigações relacionadas aos casos Banco Master e fraudes no INSS.
O que os documentos analisavam
Os relatórios faziam avaliações sobre decisões tomadas por Mendonça e sobre a condução de investigações sob sua relatoria.
Entre os assuntos analisados estavam as operações Compliance Zero, relacionada ao Banco Master, e Sem Desconto, que investiga fraudes envolvendo descontos indevidos em benefícios do INSS.
O material também apresentou avaliações sobre a relação entre integrantes do Supremo, autoridades da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República.
Em um dos documentos, por exemplo, a inteligência da PF teria analisado a relação entre Mendonça e Jorge Messias e levantado hipóteses sobre uma suposta estratégia política relacionada à composição do Supremo. O relatório também fez avaliações sobre a atuação de diferentes autoridades.
Essas conclusões, entretanto, fazem parte de documentos de inteligência, e não equivalem a uma decisão judicial ou à comprovação das hipóteses levantadas pelos agentes.
Relatórios tinham caráter restrito
As informações divulgadas sobre os documentos indicam que eles foram produzidos para circulação restrita dentro da Polícia Federal e não tinham, originalmente, finalidade de funcionar como provas criminais.
Reportagem do UOL informou que os documentos eram considerados materiais de trabalho da área de inteligência e apresentavam níveis de confiabilidade classificados, em determinados pontos, como baixo a moderado.
Esse aspecto passou a ser um dos pontos centrais da controvérsia, justamente porque parte das informações foi posteriormente utilizada no contexto de uma investigação envolvendo um ministro do Supremo.
Moraes recebeu os relatórios
Os documentos foram encaminhados ao ministro Alexandre de Moraes, que os utilizou como parte da fundamentação de uma decisão em que pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, a apuração da conduta de André Mendonça.
Segundo informações divulgadas sobre o caso, Moraes apontou possíveis indícios de abuso de autoridade, crime de responsabilidade e outras condutas que, na avaliação dele, deveriam ser investigadas.
Entre as alegações apresentadas nos relatórios está a de que Mendonça teria adotado medidas envolvendo informações relacionadas a Moraes sem autorização específica e fora da competência que, segundo a PF, seria adequada para determinadas providências.
Mendonça, por sua vez, passou a questionar a atuação da cúpula da Polícia Federal e determinou novas providências diante do conteúdo dos documentos.
Caso envolve também ACM Neto e Antonio Rueda
Outro ponto que aparece nos relatórios diz respeito a investigações envolvendo o candidato ao governo da Bahia ACM Neto e o presidente nacional do União Brasil, Antonio Rueda.
O material analisou possíveis medidas relacionadas aos dois políticos e comparou a maneira como situações envolvendo eles teriam sido tratadas em relação a outros investigados.
Em um dos trechos divulgados, a inteligência da PF apontou uma suposta diferença nos critérios adotados para casos envolvendo ACM Neto e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. A análise levantou a hipótese de tratamento distinto conforme o posicionamento político dos envolvidos.
As afirmações fazem parte da análise produzida pela inteligência e não representam, por si mesmas, uma conclusão judicial sobre a existência de favorecimento ou perseguição.
Crise entre STF e Polícia Federal
O episódio ocorre em meio a uma disputa institucional que se intensificou nas últimas semanas após decisões relacionadas ao Banco Master.
Mendonça é o relator das investigações que envolvem a instituição financeira e determinou anteriormente a retirada do sigilo de documentos que continham mensagens entre o banqueiro Daniel Vorcaro e um contato identificado pela Polícia Federal como Alexandre de Moraes.
A divulgação desse material aumentou a tensão entre os ministros e provocou uma sequência de decisões e pedidos de investigação envolvendo integrantes do Supremo e autoridades da PF.
No outro lado da crise, os relatórios produzidos pela inteligência da Polícia Federal passaram a ser utilizados para questionar a condução dos inquéritos sob responsabilidade de Mendonça.
Afastamento ainda será analisado pelo Supremo
Por se tratar de uma decisão preventiva, o afastamento de Andrei Rodrigues e Leandro Almada ainda deverá ser submetido ao colegiado competente do Supremo.
A medida poderá ser mantida, modificada ou derrubada após a análise dos demais ministros.
Até lá, os dois permanecem afastados das funções determinadas na decisão de Mendonça.
O caso ainda deverá gerar novas manifestações tanto da Polícia Federal quanto das demais autoridades envolvidas.
Medida não representa condenação
O afastamento dos dirigentes da PF não significa que Andrei Rodrigues ou Leandro Almada tenham sido considerados culpados por qualquer crime.
Da mesma forma, as suspeitas e hipóteses registradas nos relatórios de inteligência contra André Mendonça não equivalem a uma condenação ou comprovação de irregularidade.
A apuração determinada pelo ministro deverá justamente esclarecer como os documentos foram produzidos, quem participou de sua elaboração, qual finalidade tiveram e se houve eventual uso indevido da estrutura de inteligência da Polícia Federal.
O caso permanece em andamento no Supremo e nas instâncias de investigação competentes.

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