O município de Murici, na Zona da Mata de Alagoas, voltou a ser alvo de uma grande operação da Polícia Federal (PF). Na manhã desta terça-feira (28), agentes federais, com apoio da Controladoria-Geral da União (CGU), deflagraram a Operação Delivery para aprofundar investigações sobre um suposto esquema de corrupção envolvendo contratos de obras públicas financiadas com recursos federais.
A ação marca a segunda operação de grande porte realizada pela PF no município em menos de um ano e concentra as apurações em possíveis irregularidades na execução de obras de construção e reforma de escolas e quadras esportivas. Segundo a Polícia Federal, os investigados poderão responder por corrupção ativa, corrupção passiva, peculato e associação criminosa.
Cidade é administrada pelo mesmo grupo político há mais de 30 anos
Murici é governada, de forma consecutiva, por integrantes do grupo político da família Calheiros desde o início da década de 1990.
A partir da eleição de Olavo Calheiros Novais para a Prefeitura, em 1992, o comando do Executivo municipal permaneceu sob a influência da família, passando posteriormente por gestores como Remi Calheiros, Renan Filho, Olavo Neto e, atualmente, Remi Filho.
Apesar desse contexto político, a Polícia Federal não atribuiu, até o momento, responsabilidade criminal a integrantes da família Calheiros no âmbito da Operação Delivery, nem informou qualquer medida judicial contra eles relacionada à investigação.
Investigação começou após prisão de empresário com R$ 270 mil
De acordo com a Polícia Federal, o inquérito teve início em novembro de 2025, após a prisão em flagrante do engenheiro civil e empresário Diogo José Andrade Romão.
Na ocasião, ele foi abordado nas dependências da Prefeitura de Murici transportando R$ 270 mil em espécie, além de anotações manuscritas que, segundo os investigadores, podem indicar pagamentos relacionados a contratos públicos.
Ainda conforme a PF, o empresário informou que participaria de reuniões com integrantes da administração municipal. As investigações identificaram que empresas ligadas a ele mantinham contratos milionários com o município, principalmente na área da educação.
PF aponta suspeita de pagamento de vantagens indevidas
Ao longo das investigações, a Polícia Federal afirma ter encontrado indícios de que servidores públicos municipais solicitavam vantagens indevidas e recebiam percentuais sobre contratos de obras públicas.
Segundo a corporação, o suposto esquema envolveria o repasse de informações privilegiadas e favorecimento em processos licitatórios relacionados à construção e reforma de unidades escolares e quadras esportivas.
Com base nesses elementos, a Justiça autorizou o cumprimento de seis mandados de busca e apreensão em Murici e Maceió, além do afastamento cautelar de servidores investigados e do bloqueio de bens e valores que ultrapassam R$ 1,3 milhão.
Dinheiro em espécie e moedas estrangeiras foram apreendidos
Durante o cumprimento dos mandados, os policiais apreenderam:
- R$ 123 mil em dinheiro
- US$ 1.697
- 7.345 euros
- 550 libras esterlinas.
Segundo a Polícia Federal, os valores somam aproximadamente R$ 178 mil e passarão por análise durante o andamento da investigação.
Encontro com ministro também ganhou repercussão
Antes da nova fase da investigação, o empresário investigado participou de uma reunião com o ministro dos Transportes, Renan Filho, em Brasília.
O encontro foi divulgado pelo próprio empresário em suas redes sociais, em publicação posteriormente removida. Na ocasião, ele afirmou que a reunião tratou de projetos de infraestrutura e desenvolvimento para Alagoas.
Até o momento, não há indicação da Polícia Federal de que essa reunião tenha relação com os fatos investigados na Operação Delivery, nem qualquer acusação formal envolvendo o ministro. A publicação, entretanto, repercutiu politicamente após a deflagração da operação.
Investigações continuam
A Polícia Federal informou que as investigações seguem em andamento para identificar outros possíveis envolvidos, aprofundar a análise dos contratos públicos e dimensionar eventual prejuízo aos cofres públicos.
Até o momento, não houve denúncia criminal aceita pela Justiça nem condenação relacionada aos fatos apurados. Os investigados têm direito ao contraditório e à ampla defesa durante todo o processo.

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