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China lança missão histórica com astronauta por um ano no espaço e acelera corrida para chegar à Lua antes de 2030

Tripulação da Shenzhou-23 seguirá para a estação Tiangong em uma missão que testa limites humanos, sistemas de suporte à vida e tecnologias decisivas para o futuro pouso lunar chinês

China lança missão de um ano no espaço em corrida para chegar à Lua - Foto: (CNS/CNS/AFP)

A China deu neste domingo (24) um dos passos mais ambiciosos de seu programa espacial tripulado. A missão Shenzhou-23 foi lançada do Centro de Lançamento de Satélites de Jiuquan, no noroeste do país, levando três astronautas à estação espacial Tiangong. Pela primeira vez, um integrante de uma tripulação chinesa deverá permanecer cerca de um ano em órbita, um marco científico e estratégico para Pequim em sua meta de enviar humanos à Lua até 2030.

O lançamento ocorreu às 23h08 no horário de Pequim, 12h08 no horário de Brasília, a bordo do foguete Longa Marcha-2F Y23, um dos pilares do programa tripulado chinês. A nave Shenzhou-23 tem como destino a Tiangong, laboratório orbital que se consolidou como símbolo da autonomia espacial chinesa após anos de desenvolvimento acelerado.

A tripulação é formada por Zhu Yangzhu, comandante da missão; Zhang Zhiyuan, piloto da espaçonave; e Li Jiaying, também chamada de Lai Ka-ying em cantonês, especialista de carga útil e primeira astronauta de Hong Kong a participar de uma missão espacial chinesa. Zhu já havia participado da Shenzhou-16, enquanto Zhang e Li fazem sua estreia no espaço.

A grande novidade da Shenzhou-23, no entanto, não está apenas no lançamento. Um dos três astronautas será escolhido posteriormente para permanecer na estação por um ano inteiro. A Agência Espacial Tripulada da China informou que a decisão dependerá do andamento da missão em órbita, uma escolha que envolve critérios médicos, operacionais e científicos.

Do ponto de vista técnico, a permanência prolongada representa uma mudança de patamar. Até aqui, as missões chinesas à Tiangong seguiam, em geral, ciclos próximos de seis meses. Dobrar esse período não significa apenas passar mais tempo no espaço: exige maior confiabilidade dos sistemas de reciclagem de água e ar, monitoramento médico mais robusto, proteção contra radiação e capacidade de resposta a emergências a centenas de quilômetros da Terra.

A China quer usar essa missão como laboratório para entender como o corpo humano reage a longos períodos em microgravidade. Entre os principais pontos de atenção estão perda de massa óssea, atrofia muscular, alterações cardiovasculares, exposição à radiação, distúrbios do sono, fadiga e efeitos psicológicos do confinamento. Esses dados são fundamentais para qualquer país que pretenda enviar astronautas para missões mais longas, como viagens à Lua, permanência em bases lunares e, no futuro, expedições a Marte.

A CMSA afirma que a missão permitirá montar um amplo mapa de respostas do corpo humano ao ambiente espacial, além de testar sistemas de apoio médico e proteção em órbita. A Shenzhou-23 também será usada para validar tecnologias que podem ser aplicadas em missões lunares, especialmente em cenários de permanência prolongada fora da Terra.

Além da experiência humana, a tripulação realizará mais de 100 projetos científicos e tecnológicos. As pesquisas incluem ciências da vida, medicina aeroespacial, física de fluidos em microgravidade, ciência dos materiais e novas tecnologias espaciais. Também estão previstos experimentos com embriões de peixe-zebra, embriões de camundongos e estruturas chamadas de “embriões artificiais” derivados de células-tronco, com o objetivo de estudar o desenvolvimento biológico em ambiente espacial.

Na área de materiais, os chineses pretendem estudar ligas avançadas, ímãs permanentes de terras raras e materiais leves de alta entropia. Também haverá verificação em órbita de novos tipos de baterias espaciais, com potencial de aplicação em futuras melhorias da própria estação Tiangong.

A missão ainda terá atividades extraveiculares, transferência de cargas, instalação e remoção de equipamentos externos, além de tarefas de educação científica. A nave também fará encontro e acoplamento automatizado rápido com o módulo central Tianhe, etapa importante para testar procedimentos que podem ser usados em missões mais complexas.

O contexto da Shenzhou-23 vai além da ciência. A missão ocorre em meio a uma nova corrida lunar entre China e Estados Unidos. Pequim mantém a meta de pousar astronautas na Lua até 2030 e afirma que o desenvolvimento dos principais equipamentos segue dentro do cronograma. Entre eles estão o foguete Longa Marcha-10, a nave tripulada Mengzhou, o módulo lunar Lanyue, o traje extraveicular Wangyu e o rover tripulado Tansuo.

Do lado americano, a NASA reformulou recentemente parte da arquitetura do programa Artemis. A agência prevê uma missão Artemis III em 2027 para testar sistemas e capacidade operacional em órbita baixa da Terra, incluindo interação com pousadores comerciais da SpaceX e da Blue Origin. Já a primeira alunissagem tripulada do programa Artemis segue mirando o início de 2028, na missão Artemis IV.

Essa disputa não é apenas simbólica. Quem conseguir estabelecer presença humana contínua ou recorrente na Lua terá vantagem científica, tecnológica e estratégica. A região do polo sul lunar, por exemplo, é considerada prioritária por causa da possibilidade de gelo em crateras permanentemente sombreadas, recurso que pode ser transformado em água, oxigênio e até combustível para missões futuras.

Para a China, a Tiangong funciona como um campo de provas. Em órbita baixa, o país testa aquilo que será necessário em missões mais distantes: suporte à vida, autonomia operacional, robótica, acoplamento automático, medicina espacial, logística e resistência psicológica das tripulações. A diferença é que, na Lua, qualquer erro custa mais caro. A comunicação tem atraso, o ambiente é mais hostil, a radiação é mais intensa e a possibilidade de retorno rápido é muito menor.

A entrada de Li Jiaying na missão também tem peso político e simbólico. Ex-integrante da polícia de Hong Kong, ela se torna a primeira representante da região administrativa especial chinesa a voar em uma missão espacial do país. Sua presença reforça o discurso de integração nacional em torno do programa espacial, uma área que Pequim trata como vitrine de avanço tecnológico e orgulho estatal.

A Shenzhou-23 também sucede um período de operações delicadas na estação chinesa. A tripulação da Shenzhou-21, que será substituída após a chegada dos novos astronautas, já havia acumulado mais de 200 dias em órbita, estabelecendo um novo recorde de permanência para uma tripulação chinesa.

Nos últimos anos, a China acumulou marcos importantes: concluiu a estação Tiangong, trouxe amostras lunares, pousou no lado oculto da Lua e enviou um rover a Marte. Agora, com a Shenzhou-23, o país tenta demonstrar que não apenas sabe chegar ao espaço, mas que pode manter seres humanos por períodos cada vez mais longos em ambiente orbital.

A missão, portanto, é mais do que uma rotação de tripulação. É um teste de resistência humana, de engenharia e de ambição geopolítica. Se for bem-sucedida, a Shenzhou-23 colocará a China mais perto de seu objetivo declarado: transformar a experiência acumulada na Tiangong em capacidade real de levar astronautas à superfície lunar ainda nesta década.

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