Um ritual budista, filas em museus e produtos esgotados: esses são apenas alguns dos efeitos colaterais de “Guerreiras do K-pop” (Kpop Demon Hunters), animação da Netflix que transformou uma ficção sobre caçadores de demônios em um fenômeno cultural de proporções reais — e globais.
Lançado de forma discreta no streaming, o filme “Guerreiras do K-pop” não apenas conquistou o topo da audiência mundial da Netflix, como também rompeu a barreira entre a ficção animada e o mundo real. A repercussão da animação foi tão intensa que levou até um monge sul-coreano a realizar um ritual budista autêntico para um grupo musical fictício — os Saja Boys — que nem sequer existe fora do universo do filme.
Transmitido ao vivo pelo YouTube, o Chondojae, rito tradicional feito para guiar almas rumo à paz espiritual, teve mais de 4 mil espectadores e se tornou a cerimônia mais assistida da carreira do monge, que prefere permanecer anônimo. Apesar do tom inusitado, a prática foi legítima, confirmada por registros oficiais, e virou símbolo do grau de envolvimento do público com o universo criado pelo longa.
Cultura respeitada, e exaltada
Embora os Saja Boys sejam os antagonistas da trama, foi a banda protagonista — Huntrix, um grupo feminino de caçadoras de demônios cujo poder vem da música — que conquistou corações. O filme, criado por coreano-americanos e produzido pela Sony, é considerado um marco por muitos fãs por sua representação autêntica da cultura coreana.
“Foi a primeira vez que vi tradições coreanas bem retratadas num filme estrangeiro. Os detalhes estavam quase perfeitos”, afirmou Lee Yu-min, 30, que apontou como destaque a ambientação na era Joseon, o uso de hanboks e os penteados tradicionais.
Esse cuidado com a cultura também repercutiu fora da tela. O Museu Nacional da Coreia, que abriga artefatos que inspiraram elementos do filme, viu sua visitação dobrar em julho: foram 740 mil pessoas, o dobro do mesmo período do ano anterior. Produtos temáticos, como pingentes tradicionais (norigae), broches com tigres e aves folclóricas, se tornaram itens cobiçados, com estoques esgotando rapidamente.
Do sofá ao cinema
Apesar da ausência nos cinemas sul-coreanos, o apelo do público por uma exibição local só cresce. Enquanto sessões sing-along — nas quais os fãs cantam junto — já esgotaram ingressos nos EUA, Reino Unido e Canadá, a Coreia do Sul ainda aguarda uma estreia oficial.
Alguns fãs demonstram frustração: “O filme está em cartaz no mundo inteiro, menos na terra do K-pop”, escreveu um usuário nas redes. Outros já se preparam para o dia em que isso mudar: “Se KDH for lançado aqui, tiro um dia de folga só para ir”, prometeu uma fã.
A expectativa se concentra agora no Festival Internacional de Cinema de Busan, que programou sessões limitadas do filme no formato cantado. A corrida por ingressos já começou.
Um respiro para o cinema local?
A recepção calorosa ao filme também reabriu o debate sobre o futuro do cinema na Coreia do Sul. Park Jin-soo, youtuber e ex-integrante da indústria cinematográfica, admite que subestimou o filme a princípio, mas hoje o vê como um possível ponto de virada.
“O streaming e o cinema competem, mas também podem se complementar. Um fenômeno como KDH pode reacender o interesse do público pelas salas de exibição”, opinou.
Mais de dois meses após a estreia mundial, “Guerreiras do K-pop” segue em alta. Suas músicas estão entre as mais tocadas no Spotify, os personagens inspiram memes e fanarts, e o desejo dos fãs por uma experiência coletiva continua forte.
Como disse uma admiradora nas redes:
“Já sei todas as letras. Agora só falta cantar no cinema.”

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