A descoberta de uma câmera no banheiro feminino do Colégio Estadual Cívico-Militar Érico Veríssimo, em Cambé, no norte do Paraná, provocou indignação entre estudantes e levantou questionamentos sobre a privacidade das alunas no ambiente escolar. Uma das estudantes, Alessa Gabriele, relatou ter se sentido exposta após tomar conhecimento da existência do equipamento, que, segundo ela, não havia sido informado oficialmente às famílias.
O dispositivo foi localizado na segunda-feira (19), depois que uma estudante percebeu uma luz vermelha em um aparelho instalado na parede e decidiu verificar o que havia por trás da estrutura plástica. A inspeção revelou um equipamento de monitoramento, cuja presença passou a ser questionada pelos alunos.
Após a descoberta, outro estudante fotografou o sistema de vigilância da instituição, registrando imagens do monitoramento. O episódio motivou denúncias sobre a possível captação de imagens em um espaço destinado à higiene pessoal e à troca de roupas.
“Eu me senti invadida, porque é o meu corpo que estavam vendo”, afirmou Alessa. Segundo a aluna, a situação provocou medo e insegurança, especialmente diante da possibilidade de que homens tivessem acesso às imagens por meio da sala de monitoramento utilizada pelos militares responsáveis pela vigilância escolar.
Alunas dizem que não foram avisadas sobre os equipamentos
De acordo com os relatos registrados em boletim de ocorrência, as estudantes já tinham conhecimento de um aparelho instalado no banheiro havia cerca de três anos. Na época, conforme as alunas, a direção teria informado que o equipamento era um sensor de fumaça, utilizado para impedir que estudantes fumassem no local.
As jovens também afirmaram que não receberam esclarecimentos sobre a presença de câmeras nem tinham conhecimento de qualquer autorização formal assinada pelos responsáveis para permitir esse tipo de monitoramento nos sanitários.
No documento policial, as estudantes relataram que utilizaram recentemente a área comum do banheiro e chegaram a trocar de roupa para uma sessão de fotografias. A situação aumentou a preocupação com a possibilidade de exposição indevida de seus corpos, inclusive em momentos de nudez.
As circunstâncias relatadas deverão ser esclarecidas durante a investigação, que busca determinar a finalidade dos equipamentos, o funcionamento do sistema e se houve efetivamente captação ou armazenamento de imagens que comprometam a intimidade das alunas.
Escola nega gravações dentro das cabines
Em manifestação encaminhada às famílias, a direção do Colégio Cívico-Militar Érico Veríssimo confirmou a existência dos equipamentos, mas contestou a versão de que as câmeras registravam o interior das cabines sanitárias.
Segundo a instituição, os dispositivos estavam posicionados para acompanhar as portas de entrada dos banheiros masculino e feminino. A escola sustentou que o objetivo era monitorar a circulação de pessoas e reforçar a segurança, sem registrar os espaços destinados às necessidades fisiológicas dos estudantes.
A direção também afirmou que um aluno entrou sem autorização na sala onde ficam os monitores militares e acessou o computador utilizado pela equipe de vigilância. A imagem do sistema teria sido registrada durante esse acesso e posteriormente compartilhada.
A instituição informou ainda que houve a retirada forçada das câmeras instaladas nos acessos aos sanitários. A escola declarou que pretende adotar providências administrativas e encaminhar os fatos aos órgãos competentes, além de ouvir as pessoas envolvidas.
Na nota, a direção reafirmou o compromisso com a proteção dos estudantes e defendeu que o monitoramento de salas, corredores e entradas deve respeitar os direitos à dignidade e à privacidade.
Secretaria de Educação determina verificação do caso
A Secretaria de Estado da Educação do Paraná (Seed-PR), por meio do Núcleo Regional de Educação de Londrina, informou que tomou conhecimento da instalação dos equipamentos e orientou a direção escolar sobre as providências necessárias, considerando a privacidade e a segurança da comunidade estudantil.
De acordo com o órgão, a escola comunicou que as câmeras foram retiradas e que não existem imagens armazenadas relacionadas aos equipamentos. Uma equipe técnica deverá visitar a instituição para verificar as circunstâncias da instalação e orientar os próximos procedimentos.
A secretaria ressaltou que qualquer sistema de vigilância em unidades de ensino precisa respeitar integralmente a privacidade, a dignidade e a segurança dos estudantes, dos profissionais e das demais pessoas que frequentam o ambiente escolar.
Polícia Civil investiga a ocorrência
A Polícia Civil do Paraná instaurou um inquérito para apurar o caso e informou que realiza diligências. A investigação deverá esclarecer as condições em que os equipamentos foram instalados, a área efetivamente alcançada pelas câmeras e a eventual existência de registros de imagens.
Também deverão ser apurados os relatos das estudantes, as informações fornecidas pela direção e as circunstâncias envolvendo o acesso ao sistema de monitoramento.
Até que os fatos sejam esclarecidos, permanecem em discussão versões distintas sobre o alcance das câmeras e a finalidade de sua instalação. A confirmação de eventual violação de privacidade dependerá dos elementos reunidos pelas autoridades responsáveis pela investigação.

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