Mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, indicam que ele teria financiado e participado da organização de uma rede internacional de prostituição a partir de 2023. Segundo reportagem publicada pelo portal UOL nesta terça-feira (13), o esquema envolvia intermediários, uma agência de modelos, organizadores de eventos e o recrutamento de mulheres estrangeiras, entre elas refugiadas que deixaram seus países em razão de conflitos e situações de vulnerabilidade.
De acordo com a investigação jornalística, Vorcaro teria investido pelo menos R$ 4,3 milhões na estrutura, que organizava a presença de mulheres em festas particulares frequentadas pelo próprio empresário, amigos e convidados, incluindo autoridades. As conversas analisadas apontam que sua atuação não se limitava à contratação de acompanhantes: ele também discutia a escolha das mulheres, negociava pagamentos e participava de decisões sobre quem permaneceria no grupo.
A Polícia Federal (PF) abriu um inquérito em maio para investigar possíveis irregularidades relacionadas à contratação de mulheres estrangeiras e apurar a eventual ocorrência de crimes como favorecimento da prostituição por terceiros, exploração sexual e tráfico internacional de pessoas. Até o momento, os elementos divulgados publicamente constituem indícios que ainda precisam ser examinados pelas autoridades, sem representar, por si só, uma condenação dos envolvidos.
Os principais nomes apontados na reportagem são Leonardo Serrano, empresário do setor de eventos, e Diogo Batista, promotor de eventos em São Paulo que, segundo as mensagens, recebia R$ 120 mil mensais de Vorcaro. Os diálogos também mencionam outros intermediários e a possibilidade de utilizar uma agência de modelos como estrutura para organizar as contratações.
Contrato de R$ 1,5 milhão previa participação em agência de modelos
Um dos principais elementos reunidos pela reportagem é a negociação envolvendo a Allure Eventos, empresa de modelos pertencente ao empresário Felipe Nisti Cataldo. Em dezembro de 2023, Vorcaro recebeu uma proposta de contrato para adquirir 50% da agência pelo valor de R$ 1,5 milhão.
O documento previa, além da participação societária, a contratação de duas pessoas para projetos de interesse comum e a criação de uma estrutura para receber modelos indicadas pelo investidor. As mensagens indicam que a agência era considerada uma possível intermediária para organizar a seleção e a contratação das mulheres.
Em janeiro de 2024, Diogo Batista informou a Vorcaro que o contrato havia sido assinado. Na ocasião, escreveu: “Assim estamos blindados!”, segundo os diálogos divulgados pelo UOL. A expressão passou a integrar os elementos que levantam suspeitas sobre a intenção de formalizar as atividades por meio de uma empresa de modelos.
O pagamento negociado seria dividido em três parcelas de R$ 500 mil. A reportagem identificou um comprovante de transferência via Pix no celular de Vorcaro, relacionado ao pagamento de uma das parcelas. O documento, contudo, não é suficiente, isoladamente, para comprovar a finalidade ilícita da transação ou demonstrar todos os termos efetivamente executados.
A negociação também foi contestada pelo empresário Felipe Nisti. Procurado pelo UOL, ele afirmou que Vorcaro demonstrou interesse na agência, mas negou que a operação tivesse avançado nos termos descritos nas conversas. Sobre a transferência de R$ 500 mil, declarou que precisaria verificar a origem e a finalidade do valor.
As divergências entre as mensagens, os documentos financeiros e as declarações dos envolvidos deverão ser consideradas na apuração sobre a existência de uma participação societária efetiva e sobre a possível utilização da empresa para intermediar os serviços investigados.
Refugiadas ucranianas aparecem em conversas do grupo
Entre os episódios descritos na reportagem está o de uma jovem ucraniana de 19 anos que havia deixado seu país em meio à guerra. Segundo as mensagens, ela entrou no círculo de contatos do grupo em outubro de 2023, após ser levada a uma festa de Halloween.
No mês seguinte, Diogo Batista informou a Vorcaro que havia três refugiadas ucranianas entre as mulheres relacionadas ao grupo. A resposta atribuída ao ex-banqueiro foi: “Tem que sobrar alguma refugiada pra mim”.

Os diálogos posteriores passaram a tratar da situação da jovem, especialmente das dificuldades para retornar à Ucrânia. Em uma das conversas, Batista relatou que os pais consideravam mais seguro que ela permanecesse fora do país, diante dos riscos provocados pela guerra.
Em outra mensagem, o promotor de eventos sugeriu incluir as mulheres na agência. “Bora colocar elas na agência e daí lavamos as mãos”, teria escrito, conforme a reportagem. A conversa é apontada como um dos indícios de que a estrutura empresarial poderia ser utilizada para organizar a permanência e a contratação das estrangeiras.
Em dezembro de 2023, Batista voltou a mencionar a jovem e afirmou que ela não tinha para onde ir, relatando que a cidade de origem estava sendo bombardeada. As mensagens também indicam que o grupo discutia alternativas para sua permanência no Brasil e a possibilidade de encaminhá-la para a agência.

A situação da jovem chama a atenção dos investigadores porque envolve uma pessoa estrangeira em contexto de deslocamento forçado, com dificuldades de retorno ao país de origem e dependência de terceiros para encontrar alternativas de permanência.
Essas circunstâncias, entretanto, não comprovam automaticamente a ocorrência de tráfico de pessoas. A investigação precisa esclarecer como se deu o recrutamento, quais eram as condições oferecidas, se houve exploração e se foram empregados meios ilícitos para controlar ou direcionar as decisões da mulher.
Estrutura previa seleção das mulheres e decisões sobre permanência no grupo
As mensagens divulgadas pelo UOL sugerem que Vorcaro participava diretamente da organização do grupo. Segundo os diálogos, ele opinava sobre o perfil das mulheres, avaliava quais deveriam permanecer e discutia os valores e as condições envolvidos nas contratações.
Em janeiro de 2024, as conversas voltaram a mencionar a possibilidade de organizar a atividade por meio da Allure Eventos. Também houve discussões sobre a busca de mulheres em outras regiões do Brasil, o cadastramento na agência e a estrutura necessária para recebê-las.
Os diálogos apontam ainda para a intenção de alugar uma casa ou um apartamento destinado às mulheres. Em uma das conversas, Diogo Batista solicitou recursos para viabilizar o imóvel, enquanto Vorcaro teria estabelecido orientações sobre a contratação dos funcionários do local.
A organização não se restringia a encontros realizados em São Paulo. Segundo a apuração jornalística, as mulheres também eram levadas a eventos privados no exterior, em cidades como Paris, Londres, Roma e Dubai. As mensagens mencionam diferentes nacionalidades, incluindo ucranianas, russas, venezuelanas, argentinas e polonesas.
A diversidade de destinos e nacionalidades reforça a necessidade de esclarecer como os deslocamentos eram organizados, quem financiava as despesas e quais eram as condições de participação das mulheres nos eventos.
Em abril de 2024, segundo os diálogos, Vorcaro determinou que mulheres da Ucrânia e da Rússia fossem dispensadas e afirmou que avaliaria pessoalmente quem deveria permanecer no grupo. As conversas indicam, assim, que ele exercia influência sobre decisões que iam além da simples contratação de serviços.
A investigação deverá apurar se essa estrutura era utilizada exclusivamente para intermediar serviços de acompanhantes ou se havia práticas de exploração sexual, restrição de liberdade ou outras condutas criminosas.
Despesas milionárias e pagamentos a intermediários
Além dos valores relacionados à aquisição da agência, a reportagem identificou registros financeiros ligados à organização dos eventos. Um dos mecanismos mencionados envolvia a SL Consulting, empresa que encaminhava cobranças por despesas associadas às atividades.
Segundo o UOL, foram identificadas 21 faturas emitidas entre abril de 2024 e março de 2025, que somavam aproximadamente US$ 70 milhões. Os documentos continham descrições relacionadas a eventos, hospitalidade, hospedagem e fretamentos, com cobranças encaminhadas à Moriah Asset, gestora sediada em Belo Horizonte.
A reportagem relata que Vorcaro repassava essas faturas ao setor financeiro do Banco Master. As informações também apontam que despesas relacionadas às mulheres no Brasil eram direcionadas à Prime You, empresa mencionada nas conversas sobre pagamentos de passagens aéreas e hospedagens.
O volume financeiro identificado precisa ser interpretado com cautela. O total das faturas não significa, por si só, que todo o montante tenha sido destinado à rede investigada ou que corresponda exclusivamente a despesas com mulheres. A finalidade de cada cobrança, a efetiva realização dos pagamentos e a relação entre as empresas dependem de verificação documental.
Os diálogos também indicam que Leonardo Serrano intermediava pagamentos relacionados ao grupo de Diogo Batista. Em setembro e outubro de 2024, por exemplo, Serrano teria solicitado autorização para quitar faturas de R$ 350 mil e R$ 260 mil.
A análise dos registros financeiros poderá ajudar a identificar os responsáveis pelos pagamentos, os beneficiários dos recursos e a eventual utilização de empresas para intermediar ou dissimular despesas. A existência de movimentações financeiras elevadas, isoladamente, não comprova a prática de crime, mas pode contribuir para esclarecer o funcionamento da estrutura investigada.
Polícia Federal apura possível exploração sexual e tráfico internacional
O inquérito aberto pela Polícia Federal em maio busca esclarecer a participação de mulheres estrangeiras nos serviços contratados e verificar se houve ilegalidades na organização das atividades.
Entre as hipóteses sob apuração estão o favorecimento da prostituição por terceiros, a exploração sexual e a manutenção de estabelecimentos destinados à prática. A possibilidade de tráfico internacional de pessoas também é investigada, especialmente diante das referências a mulheres recrutadas no exterior e a refugiadas em situação de vulnerabilidade.
A distinção entre prostituição voluntária e exploração sexual é fundamental para a análise do caso. No Brasil, a prostituição exercida por pessoa adulta não é crime por si só. Entretanto, determinadas condutas de terceiros, como o favorecimento da prostituição alheia em circunstâncias previstas na legislação e a exploração sexual, podem configurar crimes.
O tráfico de pessoas, por sua vez, exige a análise dos elementos previstos em lei, incluindo, conforme a modalidade e as circunstâncias, atos de recrutamento, transporte, transferência, alojamento ou acolhimento associados à finalidade de exploração. A condição de refugiada ou estrangeira, isoladamente, não comprova a ocorrência desse delito.
Por isso, será necessário esclarecer se as mulheres tinham liberdade para decidir sobre sua participação nos eventos, se receberam os valores acordados, se foram submetidas a ameaças ou constrangimentos e se alguém se aproveitou de sua vulnerabilidade para explorá-las.
A apuração também deverá identificar o papel de cada pessoa mencionada nas mensagens e verificar se as empresas citadas tinham participação consciente nas atividades investigadas. A responsabilidade criminal depende da comprovação individualizada das condutas.
Defesa de Vorcaro contesta acusações
Após a divulgação das informações, a defesa de Daniel Vorcaro contestou as acusações e classificou o conteúdo da reportagem como uma “manipulação criminosa”. Em nota divulgada ao UOL, o ex-banqueiro negou ter explorado ou desrespeitado mulheres e afirmou que as mensagens teriam sido obtidas ilegalmente e apresentadas fora de contexto.
Vorcaro também declarou disposição para colaborar com as investigações, segundo a publicação. As manifestações da defesa integram o conjunto de informações que deverá ser considerado pelas autoridades na análise dos fatos.
A apuração permanece centrada na interpretação das mensagens, na verificação dos documentos contratuais e financeiros e na identificação das condições em que as mulheres foram recrutadas e participaram dos eventos.
Até que as investigações avancem e haja eventual decisão judicial, as suspeitas atribuídas aos envolvidos devem ser tratadas como objeto de apuração, sem antecipar conclusões sobre responsabilidade criminal.

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