segunda-feira , 3 agosto 2026
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Mãe Rainha das Trevas inaugura estátua de 11 metros em homenagem ao Diabo no Ceará e reacende debate sobre liberdade religiosa

Monumento foi erguido em propriedade particular no litoral cearense, possui autorizações dos órgãos competentes e gerou ampla repercussão nas redes sociais; líder da Quimbanda afirma sofrer preconceito por causa de sua religião

Samuel Pinusa

A inauguração de uma estátua de aproximadamente 11 metros em homenagem ao Diabo, construída em um templo da Quimbanda no município de São Gonçalo do Amarante, no litoral do Ceará, provocou intenso debate nas redes sociais e reacendeu discussões sobre liberdade religiosa, intolerância e respeito às diferentes manifestações de fé no Brasil.

A obra foi instalada no Palácio Estrela Negra da Quimbanda, localizado no distrito de Taíba, e pertence à sacerdotisa conhecida como Mãe Rainha das Trevas, líder religiosa que acumula centenas de milhares de seguidores nas redes sociais e é conhecida por divulgar conteúdos relacionados à Quimbanda e à feitiçaria tradicional brasileira.

Monumento foi construído com recursos próprios

Segundo a sacerdotisa, toda a construção foi financiada com recursos particulares. O investimento, de acordo com ela, foi de aproximadamente R$ 100 mil, sem utilização de recursos públicos.

A líder religiosa também afirmou que buscou todas as autorizações necessárias antes do início da obra. Conforme informações confirmadas pela Prefeitura de São Gonçalo do Amarante, o empreendimento recebeu as licenças urbanísticas e ambientais exigidas para sua instalação, inclusive por estar localizado em uma Área de Proteção Ambiental (APA).

A imagem foi instalada dentro de uma propriedade privada e integra o complexo religioso onde são realizados encontros, cerimônias e rituais da Quimbanda.

Quem é Mãe Rainha das Trevas

Conhecida nas redes sociais como Mãe Rainha das Trevas, a sacerdotisa atua há décadas na Quimbanda e afirma dedicar sua vida ao culto religioso.

Antes de estabelecer o templo na Taíba, ela manteve, em Fortaleza, um espaço conhecido como Casa dos Caixões, local que também chamou atenção pela estética voltada aos símbolos utilizados em sua tradição religiosa.

Nas redes sociais, a líder religiosa costuma compartilhar conteúdos sobre rituais, espiritualidade e temas ligados à Quimbanda. Ela também afirma prestar atendimento espiritual a pessoas de diferentes áreas, incluindo empresários e agentes públicos, embora não divulgue nomes nem apresente detalhes sobre esses atendimentos.

Sacerdotisa relata episódios de preconceito

Após a repercussão da inauguração da estátua, Mãe Rainha das Trevas afirmou ter recebido críticas e ataques motivados por preconceito religioso.

Segundo ela, as manifestações de intolerância não começaram com a construção do monumento, mas acompanham sua trajetória desde os primeiros anos de atuação religiosa.

Apesar da repercussão, a sacerdotisa afirma não temer atos de vandalismo contra a estátua e diz confiar no respeito da comunidade local, onde desenvolve atividades religiosas e ações sociais.

Entre essas iniciativas, o templo promove distribuição de alimentos provenientes de oferendas autorizadas pela tradição religiosa e campanhas beneficentes voltadas à arrecadação de brinquedos para crianças em situação de vulnerabilidade, segundo a própria dirigente.

O que é a Quimbanda

A Quimbanda é uma tradição religiosa presente no Brasil que possui diferentes vertentes e interpretações, não havendo uma autoridade central que represente todas as suas práticas.

Pesquisadores e sacerdotes explicam que algumas linhagens utilizam símbolos associados à figura do Diabo e de entidades como Exu Maioral e Pombagiras, mas esses conceitos possuem significados próprios dentro da religião e não necessariamente correspondem à interpretação cristã sobre Satanás.

Especialistas destacam ainda que a Quimbanda possui características distintas da Umbanda e do Candomblé e que seus fundamentos são transmitidos principalmente pela tradição oral, variando conforme cada casa religiosa.

Liberdade religiosa é garantida pela Constituição

A repercussão do monumento também reacendeu o debate sobre intolerância religiosa no país.

A Constituição Federal garante a liberdade de crença, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos e a proteção aos locais de culto, desde que respeitadas as leis brasileiras.

Nos últimos anos, representantes de religiões de matriz africana têm denunciado episódios recorrentes de discriminação e ataques motivados por intolerância religiosa, tema acompanhado por órgãos públicos e entidades de defesa dos direitos humanos.

Embora tenha provocado forte repercussão e dividido opiniões nas redes sociais, a construção da estátua ocorreu em propriedade privada e, segundo os órgãos municipais, atende às exigências legais para funcionamento do espaço religioso. Até o momento, não há registro de irregularidades administrativas relacionadas ao empreendimento.

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