A venda de atestados médicos falsos, receitas controladas e laudos fraudulentos vem ganhando espaço nas redes sociais e em aplicativos de mensagens. Anúncios publicados de forma aberta em plataformas como o X, antigo Twitter, direcionam usuários para grupos no WhatsApp e no Telegram, onde documentos falsificados são oferecidos por valores a partir de R$ 40.
As publicações prometem atestados “válidos”, receitas médicas de diferentes categorias e documentos com suposto carimbo, CID e número de CRM ativo. Em alguns casos, os vendedores afirmam conseguir afastamentos de um ou mais dias do trabalho, além de receitas para medicamentos controlados, exames laboratoriais e laudos médicos.
O esquema chama atenção não apenas pela facilidade de acesso, mas também pelo grau de organização. Em grupos fechados, os administradores chegam a apresentar tabelas de preços, formas de pagamento, prazos de entrega e supostos depoimentos de compradores para tentar dar aparência de credibilidade ao serviço.
Como funciona a oferta dos documentos
Os anúncios costumam partir de perfis em redes sociais que usam linguagem informal e prometem rapidez. Depois do primeiro contato, o interessado é direcionado para grupos ou conversas privadas em aplicativos de mensagem.
Nesses ambientes, os vendedores pedem dados pessoais como nome completo, CPF, RG, endereço, cartão do SUS e, em alguns casos, informações sobre a empresa ou instituição onde o documento será apresentado. Também perguntam quantos dias de afastamento o comprador deseja ou qual medicamento pretende adquirir.
Entre os produtos oferecidos aparecem:
- atestados médicos para afastamento do trabalho;
- receitas para medicamentos de uso controlado;
- laudos médicos;
- exames laboratoriais;
- documentos com suposto CRM e carimbo médico;
- venda direta de remédios que exigem prescrição.
Em uma das tabelas divulgadas pelos perfis, um atestado de um dia era oferecido por R$ 40. O valor aumentava conforme o período de afastamento, podendo chegar a mais de R$ 100 para documentos com mais dias de licença.
Crime para quem vende e para quem compra
Especialistas em direito criminal alertam que a prática pode atingir tanto quem produz e vende os documentos quanto quem compra e utiliza o material. O enquadramento depende de cada caso, mas pode envolver falsidade de atestado médico, falsidade ideológica, falsificação de documento e uso de documento falso.
Quando há participação consciente de um profissional de saúde na emissão de documento com informação falsa, o caso pode ser analisado como falsidade de atestado médico ou falsidade ideológica. Já quando criminosos usam dados de médicos sem autorização, com carimbos, assinaturas ou números de registro falsificados, o caso pode envolver falsificação documental.
O comprador também não fica livre de responsabilidade. Ao apresentar um atestado falso em uma empresa, escola, faculdade ou órgão público, a pessoa pode responder pelo uso do documento fraudulento. No ambiente de trabalho, a consequência pode ser ainda mais imediata: demissão por justa causa.
Justa causa pode ser aplicada
Na área trabalhista, a apresentação de atestado médico falso costuma ser tratada como quebra de confiança entre empregado e empregador. A conduta pode ser enquadrada como ato de improbidade, uma das hipóteses previstas na Consolidação das Leis do Trabalho para demissão por justa causa.
Decisões recentes da Justiça do Trabalho têm mantido dispensas de funcionários que apresentaram documentos falsificados para justificar faltas. Em casos analisados por tribunais, empresas comprovaram a fraude após consultar unidades de saúde ou médicos citados nos documentos.
Para especialistas, mesmo quando o trabalhador não tem histórico de punições anteriores, a gravidade da fraude pode justificar a rescisão imediata, sem necessidade de advertências ou suspensões prévias.
Risco vai além da fraude trabalhista
A comercialização de receitas falsas também acende um alerta de saúde pública. Muitos dos medicamentos oferecidos nesses grupos exigem acompanhamento médico justamente por apresentarem risco de dependência, efeitos colaterais graves ou interações perigosas com outras substâncias.
Entre os produtos citados nas ofertas estão remédios para emagrecimento, estimulantes, ansiolíticos, anabolizantes e medicamentos usados em tratamentos psiquiátricos. O uso sem avaliação profissional pode mascarar doenças, atrasar diagnósticos e causar intoxicação, sedação excessiva, alterações cardíacas, reações alérgicas e complicações respiratórias.
Farmacêuticos e médicos reforçam que medicamentos controlados não devem ser usados por indicação de terceiros, por modismo ou por facilidade de compra em grupos clandestinos. A prescrição existe para avaliar histórico clínico, dose adequada, contraindicações e necessidade real do tratamento.
O que dizem as plataformas
O Telegram afirma que a venda ilegal de substâncias controladas e certificados médicos fraudulentos viola seus termos de serviço e que conteúdos desse tipo são removidos quando identificados. A plataforma também diz utilizar ferramentas de inteligência artificial e denúncias de usuários para localizar irregularidades.
O WhatsApp declara que não permite o uso do serviço para fins ilícitos e que pode desativar contas que violem suas regras. A empresa também orienta usuários a denunciarem conversas, grupos ou perfis suspeitos diretamente pelo aplicativo.
Apesar disso, a circulação dos anúncios mostra a dificuldade de fiscalização em ambientes digitais, especialmente quando perfis em redes abertas funcionam como porta de entrada para grupos fechados, onde a negociação acontece de forma mais reservada.
CFM reforça regras para emissão de atestados
O Conselho Federal de Medicina estabelece que documentos médicos devem ser emitidos após avaliação adequada do paciente. Atestados, relatórios, laudos e declarações têm valor médico, administrativo e legal, por isso não podem ser tratados como simples produtos comercializados pela internet.
A norma atual do CFM também reforça a necessidade de identificação do paciente e do profissional, além de assinatura, registro médico e dados que permitam verificar a autenticidade do documento. A emissão sem consulta, sem avaliação clínica ou sem base técnica pode configurar infração ética e resultar em processo no Conselho Regional de Medicina.
Como se proteger
Empresas, instituições de ensino e órgãos públicos devem redobrar a atenção diante de documentos com sinais de adulteração, informações inconsistentes, carimbos ilegíveis ou dados que não correspondem à unidade de saúde indicada.
Entre as medidas recomendadas estão:
- conferir se o CRM informado pertence ao profissional indicado;
- verificar se a unidade de saúde realmente realizou o atendimento;
- observar rasuras, erros grosseiros e inconsistências no CID ou nas datas;
- evitar aceitar documentos enviados por canais suspeitos sem validação;
- orientar funcionários e estudantes sobre os riscos legais da fraude.
Usuários que encontrarem grupos ou perfis oferecendo atestados e receitas falsas podem denunciar o conteúdo dentro das próprias plataformas e, dependendo do caso, registrar ocorrência junto às autoridades policiais.
Fraude digital com impacto real
A venda de atestados falsos por R$ 40 revela uma combinação perigosa entre crime digital, desinformação em saúde e precarização da confiança nas relações de trabalho. O que é anunciado como uma solução rápida para “tirar uma folga” pode resultar em processo criminal, perda do emprego e exposição a medicamentos perigosos.
Mais do que uma infração administrativa, a prática atinge a credibilidade de documentos médicos, coloca pacientes em risco e movimenta um mercado clandestino que se aproveita da facilidade de circulação nas redes sociais. Para especialistas, o combate ao problema depende de fiscalização das plataformas, atuação dos conselhos profissionais, investigação policial e conscientização da população.

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