O universo íntimo e fragmentado de um jovem negro e bissexual ganha forma poética no livro No Tempo de Um Cigarro, estreia de Erick Moura Sampaio, que será lançado na Bienal do Livro de Alagoas deste ano. A publicação foi selecionada por edital da Editora Arpillera, especializada em obras artesanais e narrativas periféricas.
Das incertezas silenciosas da adolescência às páginas de um livro feito à mão, a trajetória de Erick Moura Sampaio, 29 anos, é marcada por pausas, recomeços e uma escrita visceral. Natural de Maceió, o autor encontrou na poesia uma forma de dar sentido às suas experiências — afetivas, raciais e existenciais — e agora compartilha esses versos com o público em No Tempo de Um Cigarro, publicação com 99 poesias curtas, escritas para serem lidas no tempo de um cigarro, como sugere o título.
Selecionado por meio de edital da Editora Arpillera, projeto voltado a autorias marginalizadas — como negras, LGBTQIAP+, indígenas e mulheres — o livro será lançado oficialmente entre os dias 31 de outubro e 9 de novembro, na Praça de Autores Independentes da Bienal do Livro de Alagoas, no Centro de Convenções de Maceió.
Dividido em três capítulos — Chama, Fumaça e Cinzas — a obra propõe uma leitura que combina abstração, crítica social e lirismo urbano. A capa, ilustrada pelo próprio autor, representa esse ciclo poético com três mãos segurando um cigarro em diferentes estágios de queima.
A relação de Erick com a poesia começou ainda na adolescência, mas se fortaleceu nos anos seguintes, entre tentativas frustradas de concluir os cursos de Psicologia e Ciências da Computação. Ele conta que a escrita surgiu como uma necessidade de dar vazão às inquietações e ao deslocamento social que sentia enquanto jovem negro de classe média, nascido em uma família evangélica. “A realidade muitas vezes nos impede de existir com leveza. A poesia foi o lugar onde pude existir por inteiro, mesmo nas sombras”, afirma.
Entre as poesias do livro, ele destaca O Inebriante Sussurro das Migalhas, em que transforma o sentimento de exclusão em imagens poéticas potentes. “Falo sobre o que é viver sob olhares que te julgam antes de saber quem você é. Ser negro, bissexual e sensível ainda assusta muita gente”, comenta.
A obra é vendida sob encomenda, em edição artesanal, por R$ 60, e pode ser adquirida pelo site da editora: https://editoraarpillera.com.br.
Cada exemplar é feito manualmente, em um processo que reforça o cuidado e a delicadeza da produção alternativa de literatura. A sinopse da publicação descreve o livro como uma travessia entre o cotidiano e o simbólico, tratando de temas como afeto, corpo, deslocamento, pertencimento e identidade racial.
Com um processo criativo que nasce de pequenas frases rabiscadas em blocos de papel no meio do dia, Erick diz que a escrita o conecta a um lugar de memória e significado. “Eu não sei de cor minhas poesias, mas lembro exatamente onde estava quando elas nasceram. Cada uma guarda um pedaço da minha história.”

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