quarta-feira , 11 março 2026
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Homem que matou gari pediu à esposa delegada que ocultasse arma usada no crime

Mensagens recuperadas pela polícia mostram tentativas do empresário Renê da Silva Nogueira Júnior de manipular provas e evitar prisão após matar o trabalhador Laudemir de Souza Fernandes.

Reprodução

“Estava no lugar errado, na hora errada. Amor, eu não fiz nada.” Foi com essa frase que o empresário Renê da Silva Nogueira Júnior, de 47 anos, tentou justificar à esposa — que é delegada da Polícia Civil — o assassinato do gari Laudemir de Souza Fernandes, 44, em um caso que chocou Belo Horizonte e vem repercutindo nacionalmente.

A mensagem foi enviada momentos antes de Renê ser preso em uma academia de luxo. A polícia já havia identificado o suspeito do homicídio ocorrido em 11 de agosto, após uma briga de trânsito com trabalhadores da coleta de lixo. Laudemir foi baleado enquanto trabalhava e não resistiu aos ferimentos.

O conteúdo das mensagens e áudios obtidos pela polícia e divulgados pelo g1 revelam tentativas do empresário de ocultar provas e atrapalhar a investigação. Em uma delas, Renê pediu à esposa, a delegada Ana Paula Lamêgo Balbino, que entregasse à polícia uma pistola 9 milímetros, em vez da verdadeira arma do crime, uma pistola calibre .380.

“Entrega a nove milímetros. Não pega a outra. A nove milímetros não tem nada”, escreveu Renê.

Segundo o inquérito, Ana Paula não respondeu à mensagem e não chegou a atender ao pedido do marido. Ainda assim, a delegada foi indiciada por porte ilegal de arma de fogo, por permitir que o marido utilizasse armamento registrado em seu nome.

Renê Júnior foi indiciado por homicídio duplamente qualificado, pelo uso de recurso que dificultou a defesa da vítima e por motivo fútil, além de porte ilegal de arma e ameaça. A pena, em caso de condenação, pode chegar a 35 anos de prisão.

Já Ana Paula, por ser servidora pública, pode ter a pena aumentada em até 50%, conforme previsto na legislação penal. A decisão caberá ao Poder Judiciário.

Outras imagens também chamaram atenção. Em vídeos obtidos pela polícia, o empresário aparece manuseando armas e disparando de uma varanda durante o que parece ser uma comemoração de réveillon. Em um dos trechos, Renê sorri após efetuar um disparo com uma espingarda, enquanto pessoas ao redor comemoram.

“Isso aqui, meu irmão, pegou, arranca perna”, diz ele no vídeo, rindo.

Em outras ocasiões, ele também exibia o distintivo da esposa delegada e armas de fogo em redes sociais. Em seu perfil com quase 30 mil seguidores, Renê se descrevia como “Christian, husband, father & patriot” (“cristão, marido, pai e patriota”, em português).

O crime ocorreu na esquina das ruas Jequitibá e Modestina de Souza, em BH. De acordo com testemunhas, Renê dirigia um veículo elétrico BYD e se irritou com a presença de um caminhão de lixo na rua. Ao exigir passagem, ameaçou a motorista, uma mulher que estava trabalhando no turno da madrugada.

Mesmo com espaço suficiente na via, segundo depoimento da motorista, o empresário insistiu e sacou a arma. Os garis tentaram acalmar a situação, mas Renê disparou contra Laudemir, que caiu gravemente ferido. A vítima foi levada às pressas por uma viatura da Polícia Militar, mas não resistiu.

A Prefeitura de Belo Horizonte confirmou que Laudemir era funcionário terceirizado da limpeza urbana.

Em seus perfis, Renê se apresentava como CEO da Fictor Alimentos. Em nota, a Fictor Alimentos LTDA afirmou que ele era apenas um prestador de serviços temporário, contratado há cerca de duas semanas e já desligado. Já a Fictor Alimentos S/A informou que não possui qualquer vínculo com o empresário.

Com a conclusão do inquérito, o caso segue agora para o Ministério Público, que deverá apresentar denúncia formal à Justiça. A defesa de Renê ainda não se pronunciou sobre as mensagens reveladas. A delegada Ana Paula Lamêgo segue em liberdade e ainda não teve afastamento anunciado oficialmente.

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