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Estudo liderado pela USP revela que 54% dos casos de demência são preveníveis na América Latina

Pesquisa mostra que ações sobre fatores como educação, sedentarismo e saúde cardiovascular podem reduzir drasticamente os diagnósticos.

Foto: Getty Images

A América Latina lidera o ranking global de prevalência de demência, e a situação deve se agravar nas próximas décadas. No entanto, um estudo liderado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em parceria com outras oito instituições internacionais, revela que 54% dos casos na região poderiam ser evitados com o controle de apenas 12 fatores de risco. A pesquisa foi publicada em outubro de 2024 na revista científica The Lancet Global Health.

Os cientistas analisaram dados de saúde de sete países: Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Honduras, México e Peru; e identificaram os principais gatilhos da doença: entre eles estão obesidade, sedentarismo, depressão, hipertensão, baixa escolaridade, poluição e perda auditiva. No Brasil, a baixa escolaridade e a hipertensão aparecem como os fatores mais relevantes, juntos respondendo por 16% dos casos de demência.

Segundo os autores, o índice de casos evitáveis na América Latina é 14 pontos percentuais maior do que o de países ricos, justamente pela maior prevalência de fatores de risco na região. A expectativa é que a população idosa com demência, que hoje representa 8,5% dos latino-americanos acima de 60 anos, salte para 19,3% até 2050.

Para os pesquisadores, o dado representa tanto uma ameaça quanto uma oportunidade: políticas públicas eficazes e específicas para cada país poderiam reduzir drasticamente o impacto da doença, sobretudo em populações vulneráveis. “Tratar apenas o indivíduo não é suficiente. É preciso transformar o ambiente e as estruturas sociais para dar suporte real à prevenção”, afirma a médica geriatra Claudia Kimie Suemoto, uma das autoras do estudo.

A pesquisa também destacou as particularidades de cada país. Enquanto a educação é o principal fator no Brasil e na Bolívia, a obesidade e a depressão têm mais peso no México, e o tabagismo se sobressai em Honduras. “Esses dados servem de guia para políticas públicas específicas. Não adianta adotar estratégias genéricas”, reforça a bióloga Regina Silva Paradela, também da FMUSP.

Além dos fatores físicos e ambientais, a saúde mental e o isolamento social também são peças-chave no desenvolvimento da demência. “A solidão afeta diretamente o cérebro, reduz o estímulo cognitivo e agrava quadros de esquecimento”, explica o geriatra Marco Túlio Cintra, da UFMG.

Apesar dos alertas, especialistas enxergam avanços. Em 2024, o Brasil sancionou a Política Nacional de Cuidado Integral às Pessoas com Alzheimer e outras Demências, e o Ministério da Saúde prepara uma cartilha educativa para conscientizar a população sobre prevenção. Para os especialistas, no entanto, os próximos anos serão decisivos para transformar essas diretrizes em ações concretas.

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