A Associação de Baianas de Acarajé (Abam), em Salvador, manifestou repúdio nesta sexta-feira (1º) contra versões doces do tradicional acarajé, como as vendidas em Aracaju (SE) e Maceió (AL), que substituem os recheios típicos por ingredientes como brigadeiro e morango.

A polêmica ganhou repercussão após comerciantes do Nordeste lançarem o chamado “acarajé do amor” — uma releitura do quitute afro-brasileiro feita com recheios doces, inspirada na popularidade de sobremesas como o “morango do amor”. Em nota oficial, a Abam classificou as versões como “sem propósito” e reafirmou o caráter sagrado e ancestral da receita tradicional.
Em sua forma original, o acarajé é feito com massa de feijão fradinho, cebola e sal, frito no azeite de dendê, e recheado com vatapá, caruru, camarão seco e vinagrete. A Abam considera que qualquer alteração descaracteriza o produto e atenta contra o seu valor simbólico. “Somos empreendedoras ancestrais, guardiãs de um legado deixado por nossos antepassados. Não abrimos mão da nossa identidade”, diz um trecho da nota.

As versões criativas que despertaram críticas incluem o “acarajé do amor”, recheado com brigadeiro e morangos, e outras variações como o “acarajé pizza”, “acarajéburguer” e até mesmo versões em formato de picolé e ovo de Páscoa. Algumas delas já foram vistas em cidades como Aracaju, Maceió, Feira de Santana e Salvador.
Uma das idealizadoras do acarajé doce, Ingrid Carozo, comerciante sergipana, afirmou que a ideia surgiu a partir de tendências nas redes sociais. “Fizemos como uma ação pontual para engajar o público. Nunca foi nossa intenção ofender a cultura de ninguém”, declarou em entrevista.
Apesar disso, a Abam reforçou que o acarajé vai muito além da culinária: ele é considerado alimento sagrado no candomblé, ofertado a orixás como Iansã. “Essas modificações ferem não só uma tradição gastronômica, mas também uma herança espiritual”, afirmou a associação.
Reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil desde 2005 pelo Iphan, o ofício da baiana do acarajé também é celebrado oficialmente no estado da Bahia. Para a Abam, o mínimo que se espera é respeito à história por trás da iguaria. “No máximo, essas invenções podem ser chamadas de bolinho de feijão. Acarajé, só com dendê, respeito e axé.”

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