Nas ruas de Maceió, colagens questionam e provocam: “Você me vê ou só o que eu carrego?”. A frase, estampada em um muro da capital, é uma das obras de Gleyson Borges, criador do projeto “A Coisa Ficou Preta”, que desde 2016 utiliza o lambe-lambe como instrumento de resistência, empoderamento e diálogo.
Formado em Administração pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Gleyson encontrou na arte de rua um caminho para ampliar vozes negras e transformar muros em espaços de reflexão. “Falar que a coisa ficou preta historicamente é uma expressão racista, usada para falar de algo ruim. Eu decidi ressignificar isso, trazer um novo significado”, explica.
Suas colagens, que já percorreram cidades como Recife, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo, questionam o lugar ocupado por pessoas negras nas artes, no cinema e na sociedade. O artista define o trabalho como “político e provocativo”, um gesto que nasceu de sua própria trajetória de reconhecimento enquanto homem negro.
Além de intervenções urbanas, Gleyson mantém uma forte presença digital. Com mais de 55 mil seguidores nas redes sociais, ele compartilha bastidores, processa críticas e se diverte com a comunidade que apelidou seus sapatos de “rei dos tênis feios”. Segundo ele, esse engajamento é combustível para continuar. “Mesmo sendo online, o apoio reflete no offline, reflete na minha vida”, afirma.
O lambe-lambe, técnica simples feita com cola, tesoura e papel, tornou-se seu principal meio de expressão por ser acessível e ter a rua como galeria. “A rua é o maior museu do mundo, aberto 24 horas por dia. Era essencial estar nela, não queria fazer só um trabalho digital”, diz.
O artista também diversificou sua produção: hoje trabalha com madeira, stencil, literatura e bordado. Sua obra “Colação”, que representa jovens negros na universidade, chegou até a ser exibida em uma reportagem do Jornal Nacional, da TV Globo.
Sobre o processo criativo, ele descreve como uma “caixa de ferramentas mental” em que reúne referências do cotidiano, músicas, conversas e encontros nas ruas. Entre suas influências, destaca os Racionais MC’s e Emicida, que marcaram sua construção identitária.
Apesar dos desafios, Gleyson mantém sua arte de forma independente, reinvestindo em materiais e projetos. “Eu faço tudo por conta própria. Tento vender alguns trabalhos, mas o apoio principal sou eu mesmo”, conta.
Do Jaraguá às redes sociais, do estêncil ao bordado, Gleyson Borges segue expandindo o alcance do seu lema: intervenções pretas nos muros brancos.

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