O desastre socioambiental provocado pela extração de sal-gema em Maceió continua no centro de discussões sobre a responsabilidade da Braskem, a atuação dos órgãos públicos e as relações políticas envolvendo a empresa. O afundamento do solo atingiu cinco bairros da capital, levou à desocupação de milhares de imóveis e obrigou dezenas de milhares de pessoas a deixar suas casas.
Nesse contexto, dois episódios envolvendo a família Calheiros voltaram a alimentar o debate político em Alagoas: a passagem do senador Renan Calheiros pela presidência da antiga Salgema, entre 1993 e 1994, e o pagamento de aproximadamente R$ 4,2 milhões a uma empresa de radiodifusão ligada ao ex-governador e atual senador Renan Filho.
Embora os fatos tenham sido registrados em documentos e declarações públicas, as responsabilidades individuais relacionadas à tragédia precisam ser analisadas à luz das evidências e dos processos em andamento.
Renan Calheiros presidiu a antiga Salgema
Renan Calheiros esteve à frente da Salgema Indústrias Químicas S.A. entre 1993 e 1994. A informação consta de registros históricos e foi mencionada durante os trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Braskem, no Senado Federal.
A Salgema iniciou suas atividades em Alagoas em 1976, com a extração de sal-gema para a produção de insumos químicos. Em 1996, a companhia passou a se chamar Trikem e, em 2002, integrou o processo de formação da Braskem.
A passagem de Renan Calheiros pela presidência da empresa passou a ser retomada no debate público diante da dimensão dos danos provocados pela atividade mineradora em Maceió.
É necessário, porém, distinguir o histórico de gestão da empresa de uma eventual responsabilidade pessoal pelo desastre. O fenômeno de subsidência que levou à desocupação dos bairros foi identificado décadas depois de sua passagem pela presidência, e a existência de responsabilidade individual exige comprovação específica.
Indenização de R$ 4,2 milhões ligada a Renan Filho
Outro ponto que gerou controvérsia foi a indenização de aproximadamente R$ 4,2 milhões paga pela Braskem ao Sistema Costa Dourada de Radiodifusão, empresa associada a Renan Filho e à esposa dele.
O pagamento foi mencionado durante uma reunião da CPI da Braskem, em abril de 2024. Na ocasião, o representante da empresa Marcelo Arantes confirmou que houve uma indenização nesse valor relacionada à realocação das atividades de radiodifusão.
O sistema reunia emissoras de rádio que funcionavam em uma área afetada pelo afundamento do solo. Assim como outros imóveis e estabelecimentos atingidos, a operação precisou ser realocada em razão dos riscos associados à mineração.
O valor passou a ser alvo de questionamentos políticos porque Renan Filho, então ministro dos Transportes e ex-governador de Alagoas, também se manifestava publicamente sobre o caso e cobrava providências da Braskem em relação às vítimas.
Na época, Renan Filho contestou a divulgação do valor, alegando que as informações sobre a indenização deveriam permanecer sob sigilo. A controvérsia também foi relacionada à confidencialidade dos acordos firmados com a empresa.
Sabatina na Band trouxe o caso ao debate eleitoral
No sábado, 12 de setembro de 2026, Renan Filho participou de uma sabatina promovida pela Band Alagoas, em meio à disputa política no estado.
O caso Braskem voltou a ser citado no debate público sobre a atuação de agentes políticos e as consequências da mineração em Maceió. A indenização ligada ao Sistema Costa Dourada, por sua vez, permanece como um dos episódios utilizados por críticos para questionar a relação entre interesses privados e a atuação pública de lideranças políticas.
A existência do pagamento, contudo, não demonstra, por si só, irregularidade. A indenização foi apresentada como compensação pela realocação das atividades da empresa em área atingida. Eventuais questionamentos sobre os critérios, os valores ou a regularidade do acordo dependem de análise documental e jurídica.
Fiscalização ambiental também está sob questionamento
A discussão sobre responsabilidades não se limita à empresa mineradora ou aos políticos que tiveram relação com a antiga Salgema. O papel dos órgãos públicos responsáveis pela fiscalização também é objeto de questionamentos judiciais.
O Ministério Público Federal (MPF) acompanha o caso e busca, entre outras medidas, a responsabilização de órgãos públicos por possível omissão fiscalizadora. Entre as instituições citadas nas discussões judiciais estão o Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA) e a Agência Nacional de Mineração.
A responsabilização desses órgãos, porém, ainda depende do andamento dos processos. O fato de uma instituição ter participado de procedimentos de licenciamento ou fiscalização não significa, isoladamente, que tenha sido comprovada sua responsabilidade pelo desastre.
Reparação dos danos segue em andamento
O caso Braskem continua a exigir medidas de reparação ambiental, urbanística e social. Segundo o MPF, a subsidência atingiu mais de 14 mil imóveis e afetou cerca de 57 mil moradores e comerciantes, que precisaram ser realocados ou tiveram suas atividades prejudicadas.
O Ministério Público Federal, em atuação conjunta com outras instituições, acompanha acordos e medidas voltados à compensação das pessoas atingidas, à recuperação das áreas afetadas e à execução de ações socioambientais.
Mesmo após os acordos de indenização, permanecem discussões sobre a extensão dos danos, a execução das medidas de reparação e a eventual responsabilidade de agentes públicos e privados.
A passagem de Renan Calheiros pela presidência da Salgema, a indenização recebida pelo sistema de radiodifusão associado a Renan Filho e os questionamentos sobre a fiscalização ambiental continuam presentes no debate político. A definição de responsabilidades, no entanto, depende das evidências reunidas e das decisões das instâncias competentes.

Deixe um comentário