segunda-feira , 8 junho 2026
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Investigador da Polícia Civil é acusado de liderar esquema de revenda de drogas na Paraíba

Operação Perfidus prendeu delegado, investigadores e outros suspeitos; apuração aponta desvio de entorpecentes apreendidos, proteção a criminosos e movimentação milionária incompatível com salário público

Foto: Reprodução/TV Globo

Um caso que abalou os bastidores da segurança pública da Paraíba ganhou repercussão nacional após a divulgação de vídeos e áudios que, segundo as investigações, mostram policiais civis tratando a venda de drogas como uma atividade empresarial. No centro da apuração está o investigador Everton Rychelyson da Silva Aires, conhecido como Bomba ou Bombado, apontado como uma das principais peças de um suposto esquema de revenda de entorpecentes apreendidos em operações policiais.

De acordo com a investigação, Everton teria recebido mais de R$ 4 milhões nos últimos cinco anos, valor considerado incompatível com o salário de investigador da Polícia Civil, estimado em cerca de R$ 8,5 mil. Em uma das gravações reveladas, ele teria resumido a lógica do grupo com uma frase que chamou atenção: “Isso é negócio, isso não é pessoal”. Em outro trecho, teria afirmado que “a polícia paga uma merreca”, ao comparar ganhos paralelos com o vencimento recebido do Estado.

A Operação Perfidus foi deflagrada na terça-feira, 2 de junho, em ação conjunta do Ministério Público da Paraíba e da Polícia Civil, por meio do Gaeco, da Draco e da Unintelpol. Ao todo, foram cumpridos nove mandados de prisão e 24 mandados de busca e apreensão. A Justiça também determinou o bloqueio de aproximadamente R$ 10 milhões em bens e valores ligados aos investigados.

Além de Everton Aires, também foram presos o investigador Eduardo Jorge Ferreira do Egito, conhecido como Mão Branca, e o delegado Braz Morroni de Paiva, então titular da Delegacia de Crimes Contra o Patrimônio, em João Pessoa. Segundo a apuração, os agentes públicos não apenas teriam se associado a traficantes, mas também usado a estrutura do próprio Estado para favorecer atividades criminosas.

O esquema, conforme os investigadores, funcionaria a partir de informações privilegiadas repassadas por criminosos sobre imóveis, veículos e locais usados para guardar ou transportar drogas. Com esses dados, policiais suspeitos realizariam abordagens e incursões clandestinas, dando aparência de legalidade às ações. Parte dos entorpecentes encontrados seria registrada oficialmente, enquanto outra parte seria desviada e revendida no mercado ilegal.

As apurações também apontam que drogas já apreendidas e armazenadas em unidades policiais teriam sido retiradas clandestinamente. Segundo o Ministério Público, a prática mostraria um grau elevado de comprometimento institucional, já que o material, em vez de seguir o fluxo legal de apreensão, guarda e destruição, teria voltado para o crime.

Outro ponto grave da investigação envolve o suposto vazamento de informações sigilosas. O grupo é acusado de avisar criminosos sobre operações policiais, permitindo que investigados fugissem, mudassem rotas ou escapassem de ações das forças de segurança. Para os investigadores, esse comportamento colocava em risco operações oficiais e favorecia diretamente facções e traficantes.

A origem do caso remonta a 2025, quando uma denúncia feita por um integrante do tráfico levantou suspeitas sobre a conduta de policiais civis. O denunciante teria relatado que uma carga de drogas pertencente a um grupo criminoso havia sido subtraída por agentes. A partir daí, os investigadores passaram a acompanhar a rotina dos suspeitos, reunindo áudios, vídeos, movimentações financeiras e indícios de encontros com criminosos.

Com o avanço das apurações, o caso deixou de ser apenas uma suspeita isolada de desvio de droga e passou a ser tratado como uma possível organização criminosa infiltrada na segurança pública. Segundo autoridades que acompanham o caso, a investigação analisou milhares de áudios e revelou uma estrutura com divisão de funções, na qual alguns agentes fariam a ponte com traficantes, outros cuidariam da proteção e outros participariam diretamente da subtração e revenda dos entorpecentes.

O nome da operação, Perfidus, vem do latim e significa “traidor” ou “desleal”. A escolha faz referência à conduta atribuída aos investigados, que, segundo o Ministério Público e a Polícia Civil, teriam usado cargos públicos, acesso a sistemas e prerrogativas policiais para beneficiar organizações criminosas.

Apesar da gravidade das acusações, as defesas negam irregularidades. A defesa de Everton Aires afirmou que o devido processo legal está em curso e que o investigador não aceita as acusações. O advogado de Eduardo Jorge disse não considerar crível que policiais estivessem negociando drogas de forma aberta e levantou a possibilidade de um processo de desgaste de imagem. Já a defesa de Braz Morroni sustenta que não há elementos que comprovem a participação consciente do delegado nos fatos investigados.

O caso segue em apuração e ainda depende dos desdobramentos legais, incluindo eventual denúncia formal do Ministério Público e análise do Judiciário. Até lá, os investigados devem ser tratados como suspeitos. Ainda assim, a Operação Perfidus expõe uma ferida sensível: quando agentes encarregados de combater o crime são acusados de negociar com ele, a confiança da população nas instituições de segurança passa a ser diretamente atingida.

Mais do que um caso policial, a investigação coloca em debate a necessidade de controle interno, corregedorias fortes e fiscalização permanente dentro das corporações. A suspeita de que drogas apreendidas tenham sido desviadas e revendidas por quem deveria retirá-las das ruas transforma o episódio em um dos mais graves recentes da segurança pública paraibana.

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