A Colômbia realiza neste domingo (31) o primeiro turno da eleição presidencial em um dos momentos mais delicados de sua segurança interna nos últimos anos. Mais de 41 milhões de colombianos estão habilitados a escolher o próximo presidente e vice-presidente do país, em uma disputa marcada pela polarização política, pelo desgaste da atual estratégia de paz e pelo crescimento de grupos armados ilegais em várias regiões.
O sucessor de Gustavo Petro, que não pode disputar a reeleição consecutiva, assumirá a Casa de Nariño com uma missão considerada central: definir qual será o caminho do Estado colombiano diante de uma violência armada que atravessa décadas e que, mesmo após o acordo de paz de 2016 com as Farc, nunca deixou completamente o território nacional.
A votação ocorre em meio a um ambiente de forte preocupação pública. Ataques com drones, deslocamentos forçados, assassinatos, disputas por rotas do narcotráfico e confrontos entre organizações armadas voltaram a pressionar comunidades rurais e regiões estratégicas do país. Em áreas como Catatumbo, Cauca, Guaviare, Chocó e Putumayo, a presença de grupos ilegais segue como um dos principais desafios para o próximo governo.
Entre os nomes mais competitivos da disputa aparecem o senador Iván Cepeda, aliado de Petro e defensor da continuidade das negociações de paz; o advogado e empresário Abelardo de la Espriella, que promete uma política de segurança mais dura contra organizações criminosas; e a senadora Paloma Valencia, ligada ao campo conservador e ao ex-presidente Álvaro Uribe, que também defende uma resposta mais enérgica do Estado.
A eleição é vista como um teste direto ao projeto político de Gustavo Petro. Seu governo apostou na chamada política de “Paz Total”, uma tentativa de negociar simultaneamente com guerrilhas, dissidências e grupos criminosos. A proposta, no entanto, enfrenta críticas diante do aumento da violência em algumas regiões e da percepção de que facções armadas aproveitaram cessar-fogos e negociações para ampliar sua presença territorial.
Do outro lado, setores da direita defendem uma ruptura com essa estratégia e pregam maior pressão militar, fortalecimento das forças de segurança e cooperação internacional mais intensa no combate ao narcotráfico. Esse debate recoloca no centro da política colombiana uma pergunta antiga: negociar com grupos armados ou enfrentá-los com mão dura?
Crescimento dos grupos armados preocupa
Um relatório da Fundação Ideias para a Paz apontou que a Colômbia entrou no ano eleitoral com um cenário de segurança mais frágil do que em disputas anteriores. Segundo a organização, os grupos armados ilegais chegaram a mais de 27 mil integrantes em 2025, registrando crescimento superior a 20% em relação ao ano anterior.
O estudo também mostrou aumento nas disputas entre organizações ilegais. Os confrontos entre grupos armados atingiram o maior nível em uma década, impulsionados por disputas por territórios, rotas de cocaína, mineração ilegal, extorsões e controle social sobre comunidades.
Esse avanço tem relação direta com a fragmentação do conflito colombiano. Após o acordo de paz com as Farc, parte da antiga guerrilha se desmobilizou, mas dissidências permaneceram ativas. Ao mesmo tempo, o ELN, o Clan del Golfo e outras estruturas criminosas ampliaram sua influência em regiões onde a presença do Estado ainda é limitada.
Catatumbo virou símbolo da crise
A região de Catatumbo, na fronteira com a Venezuela, tornou-se um dos principais símbolos da deterioração da segurança. A disputa entre o ELN e dissidências das antigas Farc provocou uma grave crise humanitária, com dezenas de mortos e milhares de deslocados.
A área é estratégica por sua localização e por sua ligação com o cultivo de coca, matéria-prima usada na produção de cocaína. A violência no território expôs a dificuldade do Estado colombiano em garantir segurança, assistência humanitária e controle permanente em zonas historicamente disputadas por grupos armados.
Para organizações de direitos humanos, a população civil continua sendo a maior vítima. Famílias inteiras são obrigadas a deixar suas casas, lideranças sociais sofrem ameaças, comunidades indígenas e camponesas enfrentam confinamento e jovens seguem vulneráveis ao recrutamento forçado.
O que está em jogo na eleição
A votação deste domingo vai além da escolha de um novo presidente. O resultado pode definir o rumo da política de segurança, a relação da Colômbia com os Estados Unidos, a continuidade das reformas sociais de Petro e a forma como o país enfrentará o narcotráfico nos próximos anos.
Caso nenhum candidato alcance mais de 50% dos votos válidos, a eleição será decidida em segundo turno, previsto para 21 de junho. As pesquisas indicam um cenário competitivo e polarizado, com possibilidade de disputa direta entre projetos opostos para o país.
De um lado, há quem defenda a continuidade de negociações de paz, programas sociais e reformas para reduzir desigualdades. De outro, cresce o discurso de que a prioridade deve ser retomar o controle territorial com ações mais firmes contra guerrilhas, dissidências e facções criminosas.
Principais pontos da eleição
- Mais de 41 milhões de colombianos estão habilitados a votar;
- A eleição ocorre neste domingo, 31 de maio;
- Se nenhum candidato tiver maioria absoluta, haverá segundo turno em 21 de junho;
- Iván Cepeda aparece como principal nome da esquerda governista;
- Abelardo de la Espriella e Paloma Valencia representam candidaturas de direita com discurso mais duro na segurança;
- O avanço de grupos armados ilegais é um dos temas centrais da disputa;
- A política de “Paz Total” de Gustavo Petro está sob forte avaliação pública;
- O próximo presidente herdará um país pressionado por narcotráfico, disputas territoriais e crises humanitárias em regiões estratégicas.
A Colômbia chega às urnas dividida entre a esperança de aprofundar uma saída negociada para o conflito e a pressão por uma resposta mais dura contra organizações armadas. Em um país marcado por mais de seis décadas de violência interna, o resultado da eleição poderá redefinir não apenas o futuro político, mas também o modelo de segurança nacional para os próximos anos.

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