Em uma narrativa que costura história, denúncia e ancestralidade, o longa “O Som da Serra” começou a ser rodado em Alagoas neste mês e propõe um diálogo urgente entre o passado de luta liderado por Zumbi dos Palmares e as batalhas atuais enfrentadas pelas comunidades quilombolas do estado.
Mais do que um filme, “O Som da Serra” nasce como um manifesto cinematográfico em defesa da memória e dos direitos quilombolas. Com direção de Derick Borba e apoio da Lei Paulo Gustavo por meio da Secretaria de Cultura de Alagoas (Secult/AL), a produção está sendo gravada entre as ruas de Maceió e o território histórico de União dos Palmares — local onde floresceu o maior quilombo das Américas.
A obra acompanha a história de Luciano, um jovem serralheiro que se vê envolvido numa trama de falsificação de mapas de territórios quilombolas. Ao lado de Daniela, uma agente federal infiltrada, ele se torna peça-chave na luta contra um esquema de grilagem que reflete os desafios reais vividos por comunidades negras até hoje. A trama propõe uma reflexão sobre as novas formas de apagamento territorial e cultural no Brasil contemporâneo.
“O Som da Serra” não é apenas ficção: é uma crítica direta à negligência histórica e institucional que coloca em risco dezenas de comunidades quilombolas em Alagoas. Segundo a Fundação Cultural Palmares, o estado tem 60 comunidades reconhecidas, mas poucas têm seus territórios formalmente titulados. A grilagem, especulação imobiliária e ausência de políticas públicas mantêm essas populações vulneráveis.
Para o diretor Derick Borba, o projeto é pessoal e político. “Esse é o filme da minha vida. Caminho por essas trilhas desde criança. Cresci ouvindo as histórias de resistência de Zumbi, Dandara e Aqualtune. Este solo é sagrado, mas ainda invisibilizado. A luta pela terra não acabou — ela só mudou de estratégia”, afirma.
O elenco traz nomes como Aline Marta, premiada recentemente no Festival de Gramado, e nomes consagrados da cena cultural alagoana como Ivana Iza e Chico de Assis. A equipe, formada majoritariamente por profissionais do estado, valoriza a produção local e a identidade cultural da região.
A estreia do longa ainda não tem data definida, mas a expectativa é que circule por festivais nacionais e internacionais, além de ações educativas e comunitárias. “Queremos que o filme vá para as telas, mas também para as escolas, associações e quilombos. Que ele sirva como ferramenta de debate e resistência”, afirma Moara Barbosa, diretora executiva do projeto.
Com forte componente social e político, “O Som da Serra” aponta para a urgência de se repensar o tratamento dado às comunidades tradicionais. Ao unir arte e ativismo, o filme promete não apenas contar uma boa história, mas também ecoar as vozes de quem, há séculos, resiste para existir.

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